Espiritualidade

Vento da saudade

Se penso em quem fui
sinto saudade de mim
o eu que já se foi
e me marcou, pois era eu por dentro

Mas ao se ir deixou-me?
Sua presença é a ausência?
Eu vivo este outro eu
do qual terei saudade
mas que tristeza seria
se não me lembrasse,
pois se tornaram vento.
Sim, imateriais e intangíveis
mas também livres

Em seu silêncio me revelam
a eternidade e a esperança,
a minha pequenez no mar.

Sopram porém, sussurram
Ergo as velas e sinto,
pois não se pode compreender.

--
Campinas, 22 de junho de 2012

Utopia rima com poesia

Um sonho pode se realizar?
Ou será sempre névoa
perfeita nuvem em céu azul
inalcançável, intangível.

Um desejo às estrelas
não é tolice?
São bolas de fogo
distantes, indiferentes.

A luz da lua
tranquila, serena
não abranda o perigo
a noite segue aterrorizante

Também o Sol
energia necessária
não traz alimento à mesa
nem desfaz nossa tristeza

A música não embala
a palavra não conforta
o riso é forçado
a poesia está morta
a poesia está morta!

Gritam mil homens, cabeças pensantes
Jalecos
Gravatas

- A poesia está morta!

Aponta-me o dedo
pontiagudo
a ponto
de penetrar

Você já não vive
nunca viveu

Mas escrevo este verso
é poesia
sim
a poesia está viva
eu estou vivo

Rio do dedo ridículo
dos homens todos
encontro a palavra
e ela me encontra
Deus fala comigo
Ele existe!

A música de voz suave
harpa, violão, samba da vida
melodia harmoniosa atrevida
chama o cantar do galo
traga-me o Sol!
Ele brilha forte
É meu instinto amá-lo?
Leva embora o medo da noite
Fica a certeza do novo dia

E a Lua, que no aberto
espanta as sombras da noite
trazendo paz em meio ao medo
não devo nela acreditar?

Até mesmo a pequena luz
de muitas estrelas,
não são nossa lembrança
da luz que afugenta as sombras?
Por que não desejar dessa memória
a esperança do dia sem trevas
da alma iluminada?

A poesia me leva
flutuo além das nuvens
elas existem como os sonhos
são diferentes de perto
exigem coragem
mas são vida

Ninguém vai matar a poesia
a palavra é o próprio amanhã

Palavras

Ainda estou mais de um ano atrasado nas publicações. Escrito em 25/11/11

O novelo se desfaz - emaranhado ou não, seu estado anterior já não é importante - e o cordão de uma vida se afina. Estreito, mas sem a agilidade de uma corrente de água que sabe, sem saber, que vira rio na colina adiante. É mais uma chama num pavio defeituoso. A luz do quarto diminui e uma história cinza trêmula se desenha na parede. Os mundos nela presentes são todos meus. São - na sua essência criada - eu. Não o eu que sou de fato (e qual seria este?), mas os muitos eus que quero ser. Ou os que finjo ser.

Outrora o que se passava nessas histórias eram feitos grandiosos, inocência inofensiva. Hoje são o passado mais profundo, agora memória. Agarro a memória dessas águas geladas e penetrantes, ao andar num mero espelho úmido, morno e insípido. Escrevo em mais uma tentativa de tirar um peso que sufoca. Meço as palavras, entretanto, temendo que elas me entreguem. Ah, sorrateiras e verdadeira são as palavras. Na calada da noite sobem ao farol e anunciam a nudez do mar. Saltam como pássaros flamejantes, ora abutres cheirando carniça, ora pavões orgulhosos, ora graciosas andorinhas, ora temíveis mergulhões, penetrando o mar que não pode se esquivar.

As palavras querem sair e ser vivas. Guardá-las é um erro até serem soltas. Elas se empoleiram no pescoço, ficam pesadas, fazem cair as pálpebras. As palavras fazem greve, querem ser ouvidas. Mas eu tenho medo delas. Por palavras foi feito o Universo, e por palavras o destino se fecha. O que está oculto aparece, o que está morto vive. O que está em mim e não quero ver, já não posso mais esconder.

E como pode que, ao lançar essas letras, eu me vejo, e vejo o que não via? Será um mistério universal? O porquê de, talvez, serem atribuídos a certas palavras atém mesmo encantamentos sobrenaturais. São chaves de mecanismos que estão em nosso espírito.

Mas essa vida, que já me cansa - não toda ela, mas a do agora - me chama a seguir um novo rumo. Devo abandonar sandálias gastas? Tenho a sensação que já vivi mais que isso, que já bebi mais água da fonte e que agora só molho a boca. O riacho virou filete, a colheita não é mais a mesma. Se andava trinta quilômetros, hoje ando dez e já cansei. as não é a caminhada, ou o Sol mais quente, ou a comida mais escassa. Então pergunto: o que é? Minha solidão?

Palavras que, ao voltarem sem encontrar destino, como cartas retornando ao remetente, perdem sua razão de ser. Como caminhar sem ter um destino. A força para ser se esvai com preguiça e desânimo a ver que ser ou não ser não é tanto a questão.

Auto-análise

Visto cetim e camisa, mas é de pano de saco que se cobre meu interior. Olho no espelho e contemplo a infindável ambiguidade. Paradoxos e contradições dançam em meio à incerteza. Quem dera tivesse uma bengala, um chão para pisar.

Nós deixamos de nos auto-analisar porque queremos cegamente proclamar nossa auto-libertação. É terrível esse vislumbre, estar perto estando longe, estar errado estando certo, ou o contrário: ser pecador.

Chego ao desafio máximo do amor, a exigência final do caminho, a maior transgressão, pois descubro no meu ser meu maior inimigo, e eu o odeio.

Devo portanto morrer, e já cansei dessa repetição.

-
Escrevi a quase um ano, estou meio defasado mas aos poucos alcanço.

Introspecção

Quando isso tudo acabar
vou pensar e sentir.
Quando passar esse vendaval
vou abrir a janela
fechar os olhos
e mirar o espelho
dentro de mim.

Eu resisto, sou o remanescente
luto contra mim mesmo
mas às vezes não sei por quê.

O dia se ergue, múltiplo
apresenta-se em tantas trilhas
em cruel ironia
Fico a admirar dias que não são meus
perco o interesse na minha trilha.

É por querer ser quem não sou?
culpas novas e velhas?
é como se me parecesse
que todos os seres me desprezam
embora ostentem sorrisos
e em vão tento fazer
para ser bom
aos olhos
que caem
desanimados.

O deserto se abre
mais uma vez me convida
ao tempo de sentir e pensar
e viver pisando na areia
esta e mais nenhuma
contemplar um horizonte
imutável, grandioso
seguir a nuvem à frente.

É tempo de pisar firme
de morrer
Deixa morrer
tudo aquilo que nunca viveu.

--
Imagem de Jay Axer

Realização

Realizar-se no mundo é ser grande.
Força de vontade é querer ser grande.

No Reino, é o contrário: o objetivo é ser pequenino.

Há quem, no Reino, queira ser grande, queira dizer coisas belas, fazer grandes coisas, ser respeitado. Há quem, mesmo no Reino, queira ser maior.

EU sou um desses...

Mas pela graça de Deus, quanto maior busco ser, tanto menor me torno.

Boa noite

Cansei de tentar me convencer
parece que a vida têm sido isso
insistir por não crer nas coisas
se por um lado tenho fé
por outro nunca a conheci.
Faço tantas vezes para me ver
mas no fazer encontro a verdade
não pelo meu esforço.

Todo santo dia é santo
cada vez mais chão sagrado
a vida e tudo que nela há.
Me canso de brigas, mas me revolto
revolto-me contra a maldade
tantas vezes em mim mesmo.

Eu, que sou orgulhoso
indiferente, egoísta, contraditório...
Eu sou a contradição!
Um problema a ser resolvido!

e quem senão Deus para me equacionar?
quem senão o homem para me dar a mão?

Não escrevo mais muito
sou um poema ambulante
nos altos e baixos
me cobro produção artística
me sinto em paz na guerra.
Viro e me reviro
quero mudar o mundo!
porque não consigo mudar eu (a mim) mesmo.

Sou covarde
não faço o que planejo
discurso para o espelho
brigo com meus inimigos imaginários.
Sou uma derrota ambulante
mas mesmo assim eu venci
sem ser forte, ou grande
eu sou um vencedor!
Mas sou o menor deles
e nenhuma glória me é dada
tampouco a quero.

Eu só quero paz!
Só quero o céu azul
um dia as nuvens vão passar
gosto do seu cinza
mas o seu tempo passa
estarei pronto?
Para deixar tudo?
Devo morrer portanto
estou morto, não existo!
Mas o sopro está em mim
como um grande rio.
Sou um grande rio!
não existo, mas quem pode me ignorar?
vou-me embora, não decido
Adeus e boa noite.

--

Faz tempo que não publico, estou atrasado... Bom, segue essa crua reflexão meio desvairada e apimentada de convicção.

Odisséia

Domínio, força
poder
não é estado
ou felicidade social
que buscam em luta
É desespero
por controle que a muito perderam

Não se pode dominar-se em seu mundo
mudar a si é mais difícil.

Os gritos do inseguro

"Não é de se surpreender que as experiências espirituais estejam crescendo rapidamente por todos os lados e se tornando artigos comerciais altamente procurados. Multidões correm para lugares e pessoas que prometem intensas experiências de comunhão, emoções catárticas de alegria e doçura e sensações libertadoras de arrebatamento e êxtase. Em nossa desesperada necessidade de plenitude e incessante busca pela experiência da intimidade divina, somos todos propensos a construir nossos próprios eventos espirituais".

Henry Nowen

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