Corpo

Corporalidade e Vida

Em um famoso ensaio de mais ou menos um século atrás, Marcel Mauss destaca a importância de se estudar o corpo na Antropologia. Não sua existência material, mas seu caráter social, em específico pelo estudo das técnicas corporais: "Entendendo por essa palavra as maneiras como os homens, sociedade por sociedade, e de maneira tradicional, sabem servir-se de seus corpos."[1]

Nesse ensaio, estuda como o social, através da tradição e da educação, é capaz de, até certo ponto, moldar os corpos para realizarem determinada atividade. A forma de andar, a marcha, os atos mais banais como dormir, repousar, sentar, comer, todos têm variação entre culturas, de acordo com crenças, filosofias, tradições e utilidades práticas. Ele situa as técnicas como resultado de fatores humanos sociais, psicológicos e físicos:

O que ressalta com muita clareza destas [enumerações de técnicas], é que estamos em toda parte em presença de montagens fisico-psico-sociológias de várias séries de atos.[1]

Dentre vários exemplos curiosos, estão o de saber cuspir (certos povos simplesmente não sabem) e o dar a luz de cócoras - o que exige um grande preparo do corpo para se sustentar, etc. Em suma, o corpo é formatado para executar certas técnicas, sejam de cunho prático, seja por estética ou prática religiosa.

O que chama a atenção é que através desse aprimoramento ou manipulação corporal, quando levado a limites, leva a considerações importantes do tipo: "O que é natural?". Nossa crença exacerbada na tecnologia como artificial nos leva a crer numa natureza "natural" e uma natureza "modificada", mas até que ponto essa distinção é clara?

Em sua obra de quadrinho Blame! (ブラム!) - que faz alusão ao disparo da arma do protagonista, e não à palavra "culpa" em inglês - Tsutomu Nihei retrata uma realidade pós-apocalíptica na qual a materialidade como natural já não faz mais sentido, ou visto de outro lado, as fronteiras entre artificial e natural estão completamente borradas.

Num mundo no qual "construtores" materializam sem parar novos níveis (grandes andares mesmo) dentro dos quais mundos inteiros se desenvolvem numa mistura de matéria orgânica e inorgânica (e talvez nem faça sentido distinguí-las também), novas formas de vida emergem, existe clonagem, seres completamente sintéticos, que se alimentam de qualquer matéria para sobreviver, ciborgues, animais-robóticos, entre outras criações no estilo "cyberpunk". Curiosamente, a virtualidade também tem seu espaço se fundindo com a realidade. Certos entes que existem num espaço virtual são capazes de ser materializados na realidade conforme sua necessidade - parece loucura, mas podendo hoje fazer o download de projetos que podem ser impressos em objetos, fica mais fácil visualizar, num extensão dessa capacidade, uma materialização mais complexa. Em certos momentos, a existência ou não de alguns personagens fica confusa e atordoada. Aliás, ler essa novela gráfica praticamente sem diálogos é atordoante. Em determinado momento, nosso protagonista sofre uma queda e seu corpo sintético danificado leva 300 anos para se recompor e ele dorme durante esse tempo. A passagem do tempo muda completamente de sentido de acordo com essa manipulação do material do próprio corpo.

Ao fim, o protagonista consegue chegar ao nível mais externo da super-estrutura que percorre (levando para isso centenas de anos). Alguns dos níveis têm dimensões planetárias e a estrutura chega até o planeta Júpiter, modificando inclusive a própria estrutura do sistema solar. No fim dessa estrutura, o espaço não organizado, a necessidade de parar um processo louco e completamente vazio de sentido.

Nossos corpos são moldados - e Foucault que o diga - para servir certos fins. Nós mesmos o fazemos, nossas instituições o fazem. Mas o que somos não é também o que é nosso corpo? No momento estou sentado, e até para isso meu corpo foi formatado ao longo do processo. É ruim? Provavelmente não. Mas levanta um novo olhar sobre o que nosso senso-comum diz que é "natural". Desse ponto de vista, nada em nossa vida é natural. Mas o que seria artificial senão o que enxergamos como tal? Uma vez que essas manipulações corporais se introjetam na nossa maneira de ser, se tornam efetivamente naturais aos nossos olhos.


  • [1] - MAUSS, Marcel - As Técnicas Corporais
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