Prosa Poética

Flores

Texto de 18 de janeiro de 2012

Estou cultivando minhas próprias flores. Cuido da terra, visito-as diariamente, observo seu crescimento, se o solo está úmido. Olha, uma folha nova! Puxa, as formigas não as deixam em paz. Como crescem as ervas daninhas ao redor.

Estou aprendendo mais a amar. O poder de argumentar não serve para criar flores. Aliás, nada substitui o cuidado diário. Poderia pagar alguém para fazê-lo, mas daí não seriam minhas flores. Onde estaria minha relação com elas? Deixar para depois, também não é possível. Reclamar com elas que não cuidam de mim? Não tem sentido.

Sigo aprendendo, me humilhando, pois embora cuide delas, nem a terra que as firma, nem a água que as sacia, nem o Sol que as alimenta, nem a vida dentro delas, são meus. Assim sou, um mordomo cujo serviço a ser prestado é o amor.

Palavras

Ainda estou mais de um ano atrasado nas publicações. Escrito em 25/11/11

O novelo se desfaz - emaranhado ou não, seu estado anterior já não é importante - e o cordão de uma vida se afina. Estreito, mas sem a agilidade de uma corrente de água que sabe, sem saber, que vira rio na colina adiante. É mais uma chama num pavio defeituoso. A luz do quarto diminui e uma história cinza trêmula se desenha na parede. Os mundos nela presentes são todos meus. São - na sua essência criada - eu. Não o eu que sou de fato (e qual seria este?), mas os muitos eus que quero ser. Ou os que finjo ser.

Outrora o que se passava nessas histórias eram feitos grandiosos, inocência inofensiva. Hoje são o passado mais profundo, agora memória. Agarro a memória dessas águas geladas e penetrantes, ao andar num mero espelho úmido, morno e insípido. Escrevo em mais uma tentativa de tirar um peso que sufoca. Meço as palavras, entretanto, temendo que elas me entreguem. Ah, sorrateiras e verdadeira são as palavras. Na calada da noite sobem ao farol e anunciam a nudez do mar. Saltam como pássaros flamejantes, ora abutres cheirando carniça, ora pavões orgulhosos, ora graciosas andorinhas, ora temíveis mergulhões, penetrando o mar que não pode se esquivar.

As palavras querem sair e ser vivas. Guardá-las é um erro até serem soltas. Elas se empoleiram no pescoço, ficam pesadas, fazem cair as pálpebras. As palavras fazem greve, querem ser ouvidas. Mas eu tenho medo delas. Por palavras foi feito o Universo, e por palavras o destino se fecha. O que está oculto aparece, o que está morto vive. O que está em mim e não quero ver, já não posso mais esconder.

E como pode que, ao lançar essas letras, eu me vejo, e vejo o que não via? Será um mistério universal? O porquê de, talvez, serem atribuídos a certas palavras atém mesmo encantamentos sobrenaturais. São chaves de mecanismos que estão em nosso espírito.

Mas essa vida, que já me cansa - não toda ela, mas a do agora - me chama a seguir um novo rumo. Devo abandonar sandálias gastas? Tenho a sensação que já vivi mais que isso, que já bebi mais água da fonte e que agora só molho a boca. O riacho virou filete, a colheita não é mais a mesma. Se andava trinta quilômetros, hoje ando dez e já cansei. as não é a caminhada, ou o Sol mais quente, ou a comida mais escassa. Então pergunto: o que é? Minha solidão?

Palavras que, ao voltarem sem encontrar destino, como cartas retornando ao remetente, perdem sua razão de ser. Como caminhar sem ter um destino. A força para ser se esvai com preguiça e desânimo a ver que ser ou não ser não é tanto a questão.

Auto-análise

Visto cetim e camisa, mas é de pano de saco que se cobre meu interior. Olho no espelho e contemplo a infindável ambiguidade. Paradoxos e contradições dançam em meio à incerteza. Quem dera tivesse uma bengala, um chão para pisar.

Nós deixamos de nos auto-analisar porque queremos cegamente proclamar nossa auto-libertação. É terrível esse vislumbre, estar perto estando longe, estar errado estando certo, ou o contrário: ser pecador.

Chego ao desafio máximo do amor, a exigência final do caminho, a maior transgressão, pois descubro no meu ser meu maior inimigo, e eu o odeio.

Devo portanto morrer, e já cansei dessa repetição.

-
Escrevi a quase um ano, estou meio defasado mas aos poucos alcanço.

Ordem do dia

No que se resume um dia? Em transgressão. Meu dia se faz feliz quebrando a ordem. Eu finjo que construo-a, mas sem medo eu invisto no amor, na beleza, no estar junto. Ter para compartilhar, possuir apenas o que precisar. Transgredir é amar, é desordenar, é viver em tendas.

Realização

Realizar-se no mundo é ser grande.
Força de vontade é querer ser grande.

No Reino, é o contrário: o objetivo é ser pequenino.

Há quem, no Reino, queira ser grande, queira dizer coisas belas, fazer grandes coisas, ser respeitado. Há quem, mesmo no Reino, queira ser maior.

EU sou um desses...

Mas pela graça de Deus, quanto maior busco ser, tanto menor me torno.

Experimento #2

ɹıpǝɹƃsuɐɹʇ é ɹɐɯ∀

Doçuras (e travessuras), ou Os Açúcares Líquidos ou Tátudoerradoissoaí

O doce a gente sente na ponta da língua, é prazer imediato. É até antecipado, às vezes. Chocolate suave, nubla e entorpece, e depois se vai. Rápido como vem, depressa se esvai. Energia num momento, no outro tristeza e ansiedade. É preciso mais.

O amargo vai na garganta. E fica. Produz umas caretas às vezes. Em alguns casos, até dá prazer se é algo especial. Mas o amargo mesmo, só fica na garganta. Desprezado no paladar popular, terror das crianças, marca do desagradável.

Frustração...

Assim me distraio, num mundo que é pura distração, e me deixo levar para o mar de inconsciência. Acordar para isso um dia é cruel, mas pior é não conseguir levantar-se...

Abril já tá acabando...

Quantas páginas faltam pra acabar?
É o último capítulo já?



Começo mais um livro? Ou termino os outros?
Leio até o "O FIM"? (Leio o prefácio e a introdução também?)

Sigo em frente?

Será que a gente quer mesmo que acabe o livro? Ou só quer poder lê-lo inteiro e se exibir pra si mesmo? Ou quer terminar um pensamento, entender uma pessoa, por título numa poesia?

Tem gente que se veste de rebelde inovador, põe mil títulos, não põe título, começa a ler um livro e abandona outro, não lê nada, escreve sem pensar, foge... Só tá fugindo, mas ainda assim quer se exibir...

E tem gente que se cansa, que prefere ser invisível, na esperança de no fim ter terminado pelo menos uma boa poesia. Uns quatro versos "malemal" rimados que sejam tudo, que não sobre nada fora deles.

Eu e o Resto Do Mundo ou O Fabuloso Mundo Desconhecido do Amor ou Muita Chuva Lá Fora

Tem algo que eu quero escrever. Algo sobre amor. Sobre como quando, em consciência maior de sermos íntimos de outro, experimentamos a grande ignorância nossa à respeito do amor. Não, melhor, ignorância à respeito de como amar. Porque não somos à esse ponto ignorantes à respeito do amor.

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