Poesia
Ode à Santa Destruição
Às gentis espumas sou grato
do remanescente da onda
que correndo leve e solta
destruiu meu castelo de areia
Tanto trabalhei no meu castelo...
nele não me preocuparia com nada
nele estaria à salvo, sem medo
Eram sólidas paredes a me isolar
ruíram com a suave onda
No castelo de areia, me sentiria bem
estaria satisfeito e feliz
mas o castelo não existe mais
Seria rei, influenciando muitos homens
e meu castelo seria meu poder
mas poder nenhum restou
Porque a onda insiste
em derrubar meu castelo de areia
Viva la Verdad
Sonho meio-acordado de menino
os olhos de azul-de-céu deslumbrados
Garanto que não
não posso garantir
a rota dessa flâmula ensangüentada
é filha do leme distante do meu punho
só me dizem para manobrar as velas
quando o sopro não atinge sequer meus cílios
Só o peso do menino
o frágil mastro da vida agüenta
lá sopra o vento do horizonte
sabe do fim da viagem
mas todo o mar está em sua íris
e o passado lhe marca os cabelos
sim, agora esvoaçantes
rebatendo as cordas soltas
e o Sol nasce, como se explodisse
We Always Say
I hold my breath
I seek the ground
For all the tears that come
I guess they miss you, yeah they do
We're all together
In a shadow of heaven
Just eyes and smiles
Only meant to be unforgettable
Oh, it always have to end
Yeah, we always say goodbye
But it never really ends
And we always say...
And we always say
And we always feel
And we always miss you forever
And we always wave
And we always remember
And we always say we love you
Protestos do dia naciturno
O Sol se ergueu de manhã
e tudo foi se colocando debaixo dele
Todas as flores brancas de outono
debatem sérias
deliberam com minha memória
e decidem ser novas
e elas nem têm argumentos
Entretanto, o ar soa convincente
e o vento leva as folhas somente
porém, gritam que não são as de nunca
Antes coçava a cabeça
hoje bebo um bom gole do vinho novo
e a cada passo na calçada dessa vida
sinto que nasci ontem
e pouco me importa o resto
O Sol se pôs hoje de noite
mas nada virou de cabeça pra baixo
O hoje já virou ontem
Diálogo
Tá bom,
eu admito...
Cada um se encaixa numa fenda
do intrincado e abstrato desenho
de milhares de rachaduras
que se espalha pelo meu eu.
Não,
não me pergunte...
Porque a resposta vai partir do racho
e eu nem os conheço direito ainda.
Talvez seja o gosto amargo-doce de consciência
ou o arauto quase-insuportável da desistência.
Sim,
pode ser
que um dia os buracos se tornem gente
e as gentes se conversem assim, numa boa
e não me preocuparei mais com elas
mas com certeza algumas têm que morrer
No fim
não importa muito
Flutuações Incertas
Cansado, a cabeça não sabe onde está
o abismo dos fluidos sentimentos
escorre-se catastrófico
e sobre o resto daquilo que foi desejo
jaz a carcaça putrefata de um animal horrendo
Os abutres avistam com olhos afiados
e a refeição do mais apetitoso remorso
embate-se no horário da culpa
Fotografias Anti-Estáticas
Os olhos viraram pra dentro
vermelhos, cansados
toda escuridão e barulho
todo chão à frente, longe e cinzento
Já não há esforço nos pés
não sabem qual direção
Todas as respostas, azuis
sobrevoam o mar infinito
fazendo-se questões de abismo
insolúveis, irremediáveis.
Os impostos, a lei
o homem e seu sábado
sábado de espigas e pães
uma luz sobre o mistério
E aquele que erra,
constantemente, perdido em mil encruzilhadas
sabe o que é, ou não
só conhece a distância, escura, imensurável
Mais Madredeus...
Um Raio de Luz Ardente
És um raio de luz
Na minha vida
Um pequeno e bom raio de luz
Na minha vida
E essa luz clara e branca que tens,
é que ilumina
Todos os passos que me levam até ti
És mais quente que o sol
Quando amanhece
Brilhas mais do que as estrelas do céu
Quando anoitece
E esse raio de luz que tu és
Nunca se esquece
De iluminar cada momento para mim
Abraçar-te por fim
Por muitos anos
Devolvendo à realidade o que sonhámos
Desejava dedicar-me assim
Por muitos anos
E nunca mais renunciar a este amor
O Peso das Cortinas
Toque o piano...
Mova as notas por sobre os ombros
O que me toca me intriga hoje
A emoção é um estranho imprevisível
Posso fugir dela, e o faço
Mas não tardo encontrá-la
Pois abandonar não quero.
Não há nada explicado
É o fim de um ato
É o interlúdio da peça
Fica no ar, ao vento
Todo pólen de sentimento
Porque não sei de onde ou mesmo porque.
Faz-se e desfaz-se em sorriso
Saudade da memória,
Chuva e coração
Triste momento de indecisão
E não vejo nada além do véu
que o tempo me colocou
A escuridão amedronta
Revolta do Meio-Dia
Ninguém vive a poesia
é perigosa
O homem a teme
É uma voz poderosa
Indomável, porém tênue
Incertas na ventania
as nobres aventuras
Do que resolver um dia
Subir com ela às alturas
Não,
Prendam-na!
Sufoquem-na em meio as melodias contra o tédio
Matem-na nos livros empoeirados e papéis sujos
Seu lugar é no último sucesso à ser ouvido na rádio
Nunca passará de um pardal à cantar nos ouvidos surdos
Aquela que escapar, que seja caçada
Pelos arpões da inveja e da falsidade
Ridicularizada e caluniada, ainda que cansada

