Poesia

Mestre Campos

Às Vezes
Álvaro de Campos

Às vezes tenho idéias felizes,
Idéias subitamente felizes, em idéias
E nas palavras em que naturalmente se despegam...

Depois de escrever, leio...
Por que escrevi isto?
Onde fui buscar isto?
De onde me veio isto? Isto é melhor do que eu...
Seremos nós neste mundo apenas canetas com tinta
Com que alguém escreve a valer o que nós aqui traçamos?...

Manifesto Hoje

Não sou mais aquilo
Não estou gostando de só uma coisa
Não defino o que quero
Não enxergo o que me move

Parei de fugir
e comecei de novo
já não consigo me enganar
Sei quem sou
não gostei
e já não sei de novo

Uma tarde de sol e verde
é tão linda quanto as outras
mas não é como era
hoje é diferente
Gosto do pôr-do-sol
mas é como se ele agora fosse vivo
e não é nada
perto do nascer
o primeiro do hoje.

Tenho sono
fico acordado com café
somente amargo
pois no hoje a amargura tem seu papel

Parei de definir
Se uma coisa é, não sei
e também não me importa
se será, menos ainda

Se sou bom em algo,
o hoje me exige a contribuição
pois não sou bom em nada
na verdade, não sou bom

O hoje não tem nada
Não se pode querer ser nada
Hoje não se conhece o amor
é pouco tempo pra se contruir uma vida
Era melhor não ter acordado?
Talvez, mas o fantasma do amanhã
escraviza nossos cansados olhos
carregando a culpa do passado

No hoje, só vou sair
só vou ver o céu e sorrir
azul ou cinzento
tanto faz
se você falar
vou ouvir
e esquecer o porvir

Hoje só se é permitido esperar
e na esperança caminhar sem ver
ver é para cegos
Eu, que estou lúcido
não me meto à besta com isso

É com dor nas costas e no ego
com os espinhos do caminho do amor
um sorriso esboçado em rosto marcado
que o hoje nasce e brinca intenso
entre a aurora e o crepúsculo
morrendo feliz no coração do descanso

Concede-me, por favor,
a graça preciosa de hoje
só hoje
ouvir
e ver
e morrer
e só então,
ser...

Só um dia Nublado

Deixe-me desacelerar dessa correria louca sem fim
Deixe-me parar um pouco
Pare com isso
Deixe
me
só...

Só eu e você
em vista paralela
sobre a janela do mundo todo
Só há o nome
que quer verbo virar
pelas janelas da alma

Tenho só uma confissão
só estou para então
dizer que não ouvi o que devia
e nada se estabeleceu
pois nada quis ouvir
Se vácuo ou você
Ainda restar força pra escolher
ainda que pedras afiadas
a face me desfigurem
Só sei que nada sou
e nada restou.

E a música aconchegante

Deserto

Do pardo e árido cinza
arenoso e granular bege
que no horizonte embate-se
com o profundo e super-sereno
azul-infinito perdido
se cansaram meus olhos

Mas ainda há
o que ver, o que ouvir
o que dizer em meio à dor
o consolo, talvez amor

E eis que escuto suaves melodias
envoltas em saudosas harmonias
tristes brincalhonas no sótão
a remexer ferramentas enferrujadas
brinquedos esquecidos da verdade

Ah não, não é simples assim
(ou será que sim?)
Não tem sinal de fumaça
de batalha pra lutar
A vontade é de sair correndo

No Caminho do Mar Morto

Se enxergo já não sei
Se vejo é só o que tem
E nada de se seguir
Quem vem mais além
Nessa estrada morta de Davi
Com cegos pelos cantos
Só a gritar
Só a gritar...

Só se pode entrar aqui
meu caro amigo
se me derrubar meu templo
Se você manda por aqui
respeitado senhor
pergunta o que não quero

e me destrói, me corrói, não sou nada...

Sião das leis chegou ao fim...
Em você me encontro enfim.

--

O sorriso aliviado da despretensão

A gente nunca pensa o que tem para se pensar
e só de pensar em tudo o que se tem pra pensar
a gente vai e senta pra escolher o que dispensar

Olhe e não entenda,
sorria e chore,
sempre dependa
Sem poder,
preso à senda
Ainda livre pra viver

Ainda bem que só quando se pensa
é que se sabe não ter pensado
e no fim a ceia de hoje vai ser a mesma
todos somos cúmplices
antes e depois da quaresma
Só um bando de mendigos de sorte
por ter mais que entendido a morte

Coletânea do Curso de Férias 2008

Na semana passada, acontecia o Curso de Férias 2008, da região SP/MS da ABUB... Tempos de crises e descrises, muita reflexão, reviravolta interna. Muito bom, como sempre, ou como nunca, já que são sempre ímpares e incomparáveis esses momentos.

Lá pelo final, hora de publicar (no sentido literal da palavra) o que havia produzido durante o CF. Na quinta-feira, serenata romântica dos meninos, e no meio:

"De todos os vapores e vaidades
essa noite de estrelas escondidas
é o que eu mais queria
que fosse uma eternidade

E nesse encontro de corações

a moça de azul e sorriso e sandálias que vai além da praia

A música que sai é e não é
entra e sai pondo livros de volta na estante e na mesa.
A existência volátil da nota vazia se mistura ainda
como sangue em leite, desfazendo-se perante o futuro.
O passado, velho triste que caminha em círculos
fecha os pesados olhos claustrofóbico.
Ela se faz sensível como veludo ao toque de verdade
dança flutuando sobre tábuas enfraquecidas
seu perfume irresistível de profundo silêncio embriaga o estupefato
&nbsp &nbsp &nbsp presente.
Toda a sala, repleta de corredores, demole-se num campo verde

Fim de Tarde

Amarelo dezessete horas perfura a retina por detrás da franja
Faz-se um mundo Midas de muitas profundidades,
névoas amarelo-claras no terceiro quarteirão, agora laranja
Têm-se café com bolachas e muitas receptividades

O abutre do desejo sucumbe no hoje dourado
lentamente carnificado, tão pouco lisonjeado
As batalhas que se travam ao longe
silenciosas ao som da varanda e de sua conversa
póstumas às pequenas crianças ávidas e ex-repreendidas
Pintado de vermelho o céu do diálogo já de poucas palavras
Toda fé que se preze em seu sangue passa pelo pequeno

Ode à Santa Destruição

Às gentis espumas sou grato
do remanescente da onda
que correndo leve e solta
destruiu meu castelo de areia

Tanto trabalhei no meu castelo...
nele não me preocuparia com nada
nele estaria à salvo, sem medo
Eram sólidas paredes a me isolar
ruíram com a suave onda

No castelo de areia, me sentiria bem
estaria satisfeito e feliz
mas o castelo não existe mais

Seria rei, influenciando muitos homens
e meu castelo seria meu poder
mas poder nenhum restou

Porque a onda insiste
em derrubar meu castelo de areia

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