Tempos Atrás

Parênteses

Ao ler os relatos de uma jovem amiga pedagoga, com relação às experiências de ensinar a arte da escrita à crianças, me deparei com uma surpresa. Crianças quase sempre escolhem como forma de escrever a poesia ou a "contação" de histórias. Será por serem formas simples? Ou será que são intuitivas? Não sei o porquê, mas o engraçado é que, no momento que li isso, rapidamente me liguei que o Ciudad está 80% tomado dessas duas formas (e uma terceira, o desenho, que também é ferramenta bastante recorrente dos jovens aristas).

O Peso das Cortinas

Toque o piano...
Mova as notas por sobre os ombros
O que me toca me intriga hoje
A emoção é um estranho imprevisível

Posso fugir dela, e o faço
Mas não tardo encontrá-la
Pois abandonar não quero.

Não há nada explicado
É o fim de um ato
É o interlúdio da peça

Fica no ar, ao vento
Todo pólen de sentimento
Porque não sei de onde ou mesmo porque.

Faz-se e desfaz-se em sorriso
Saudade da memória,
Chuva e coração
Triste momento de indecisão

E não vejo nada além do véu
que o tempo me colocou
A escuridão amedronta

Mais flashes...

Pra alguém com tanto gosto pra artes visuais, falta imagem neste blog, não acham? Bom, seguem alguns rascunhos à mais da nova versão de Esperanza, minha futura HQ (daqui uns 10 anos :P)

Depois uma tirinha do meu personagem favorito de tirinhas... Vale à pena. Tenho uma coleção antiga em algum lugar em Jundiaí, se tiver tempo um dia escaneio toda ela.

Uma outra segunda-feira ...

... por ser parecida com um sonho, às vezes os dias se repetem na Ciudad, e os sentimentos são recorrentes... O dia relatado anteriormente reacontece...

O dia hoje é de início do resto... Um dia de tristeza, mas um dia de esperança, pois a vida continua...

Mesmo assim, o porto estará aberto, se a brisa resolver soprar algum dia...

Um ano...

O menino fitou o calendário, confuso... "Droga, é hoje"... Nem bem engoliu seu café da manhã após a longa noite de sono, vestiu sua camisa listrada azul e branca, deu uma arrumada nos cabelos, calçou as sandálias novas, e saiu correndo para a rua.

"Hoje é dia de festa"

Cegos na estrada

Na beira do caminho, ali depois de Jericó. Estamos por ali, sentados, à mendigar. Somos cegos pelo caminho, carentes de tudo. Não podemos seguir adiante, pois tropeçaremos no primeiro abismo.

Mas apuro os ouvidos. Uma multidão segue pela estrada. E falam de alguém. Eu sei quem é, é quem esperei a vida toda, a única esperança que me mantém vivo. Esse é o momento. Só ele pode. E estamos a chamar e gritar: "Filho de Davi, tenha pena de nós!"

Revolta do Meio-Dia

Ninguém vive a poesia
é perigosa
O homem a teme
É uma voz poderosa
Indomável, porém tênue
Incertas na ventania
as nobres aventuras
Do que resolver um dia
Subir com ela às alturas

Não,
Prendam-na!
Sufoquem-na em meio as melodias contra o tédio
Matem-na nos livros empoeirados e papéis sujos
Seu lugar é no último sucesso à ser ouvido na rádio
Nunca passará de um pardal à cantar nos ouvidos surdos
Aquela que escapar, que seja caçada
Pelos arpões da inveja e da falsidade
Ridicularizada e caluniada, ainda que cansada
Que seja sempre utopia, e nunca realidade
Que seja somente indistinguível melodia
Que nunca seja ouvida de verdade
Que fique longe da forte luz do dia
Que seus libertadores sejam escória
Sejam apenas sonhadores lunáticos
Ou tolos...

A humanidade teme a poesia
a mensagem, o verbo
Quer enclausurar as forças
que em suas músicas
impetuosas
denunciam
As monstruosidades
Do tenebroso mundo do homem.

Mas os loucos
e apaixonados (irremediavelmente)
Mesmo que roucos
Vão gritar com toda voz de sua mente
Talvez alguém ouça sua mensagem
E talvez, no fundo do cesto
Ainda reste uma semente de passagem
Para escapar do resto...

Graça - A Última Ciência

nasce o dia
e quando o dia nasce
revela outro segredo que é bom de reconhecer

e é beleza
pensamento
a última ciência que podemos ter

é da vida
firmamento
e a cada momento está a segurar
força breve
e Vale tanto
vale quanto a vida nos pode durar

indiferente
ampara toda a gente
e é a força do mundo que ainda vai recomeçar

e respira
no instante
em que as outras graças vêm ajudar

é da vida
firmamento
e a cada momento está a segurar
força breve
e vale tanto

Desparadoxo Transcendental

Castelo
Sólido, sereno-imortal, alto da cor do Céu
Tudo na guerra, paz em salão
Flechas
Tormento, veneno-mortal
Dor lancinante, da qual me tira sua mão
Por favor...

Dor inescapável da qual escapamos...

Ele marcha,
Ao seu lado flores murcham de preto sinuoso
E a morte é seu escudeiro, odor de enxofre
Nos olha vermelho,
Pupila de poço infernal
Eterna ruína negra
destruição...

Ruína iminente que nunca alcança...

Eu, deixo o pronome
Desprendido
Largado no vácuo da inexistência
Sou um nada, uma poeira cósmica
Desapareço
Perdido
Mas um homem vem
Corta colinas e move mares
Olhos brilham de cheia luz branca
Profundo como um mar
Repleto de pérolas suaves, leitosas
Suas mãos são o carinho do vento.

O homem não é nada, um homem é tudo...

O próprio sangue de Deus
Farol ofuscante... com fome de corações
Ame-o ou odeie-o
Ignorar o deus-homem é fuga sem-saída
Antes do primeiro Sol
Mesmo após o vermelho do último
Ele é
E não há...
O leão-criador, a ovelha,
O rei-amoroso,
Profeta-misterioso
Vários são os nomes,

É só um, e é vários...

E correm como o vento
São bestas terríveis, ardilosas
Serpentes de puro veneno, ferrões de destruição
Fogo e enxofre, em milhares de maldade-encarnada
Mas medo não infligem
Não mais...
Não são...
Pois o espectro de fogo
O mal-de-todo
Já foi sentenciado
E calado
Pela palavra, uma única
Que caminha
Vale verde de paz-de-colina
Verbo-homem
Arauto de verdade
As nuvens do tempo
Neblina do destino
Se fecham
E nada mais existe
Só essa essência de cheio
E que vá ao inexistente
Todo meu círculo
Ele está ao meu lado
E a morte não é temor
Venha, lhe ensino o vôo
Quando a tempestade se for
Acorde
Acabou
Venha ver as flores
Tudo passou
Tudo agora é...
O Rei-no, enfim, chegou...

(inspirado pelo hino "Ein Feste Burg ist der Gott" - Marthin Luther - século XVI)

Documento nº 3154

Assunto: Sobre os Evchan e Nevchan

1-) Introdução
Segundo a pesquisa psicomelodramatoarqueológica, segue-se o que já foi documentado à respeito do tema


2-)Indisposições Iniciais
Segundo relatos ouvidos, um tipo aparentemente comum, conhecido como Garry Jones tem aptidões que praticamente transcendem o que se considera humano. Suas aparições, entretanto, são raras e sempre diferentes. Após longos anos de busca, finalmente conseguiu-se localizar o indivíduo, objeto deste estudo, em Nova York. Ele se auto-denomina um "ever-changing" (doravante denominado Evchan), e por isso é sua característica mudar (exterior e interiormente) com frequência e dramaticidade. No momento da sua localização, ele estava num processo que ocorre à cada 10 anos. Neste, ele se encontra com um semelhante, que ele denomina um "never-changing" (doravante denominado Nevchan). Segundo ele, os dois coexistem complementarmente, e o último tem como característica sua estabilidade, opondo-se ao primeiro.

3-)Material
De maneira à apresentar o material bruto, segue-se um extrato aproximado desse diálogo entre o Evchan e o Nevchan:

Evchan: Faz tempo...
Nevchan: É verdade, você mudou...
E: Você sempre diz isso!
N: É a minha natureza...
E: Sim, eu sempre mudo, mas você sabe que existe algo na minha essência que também nunca muda.
N: Sim, é verdade, nesses encontros isso fica mais evidente.
E: Durante esse tempo, em alguns dos 'estágios' na qual eu refletia sobre as coisas (não eram todos), pensei muito sobre quem somos, nossa origem, nossa natureza.
N: Você não fazia isso.
E: É, claro, essa é uma vantagem, eu sempre mudo. Sempre conheço pessoas novas e...
N: As ama pelo tempo que durar sua fase, apenas...
E: Você sempre acha que sabe como me sinto... Em parte isso é verdade, mas EU conheço o mundo...
N: E não consegue conhecer à si mesmo.
E: Pois é aí, meu amigo imutável, que você se engana. É impossível que eu seja todo relativo, pois se fosse, como explicar a própria imutabilidade da minha natureza de Evchan? Acontece que tenho descoberto que esse não é o único absoluto em minha vida.
N: E quais são os outros?
E: Por quê você sempre ouve o que digo e se importa comigo?
N: Porque se deixasse de amá-lo, estaria contrariando minha própria natureza. As pessoas o amam somente enquanto dura uma fase sua, e depois deixam de amá-lo, pois não conhecem aquilo em você que nunca muda. Eu conheço, e por isso o amo, e isso condiz com minha natureza.
E: Pois meu amor parte exatamente dessa parte sólida dentro de mim, porque seu amor constante e sua estabilidade me tornam seguro, e minha viagens e fases apenas confirmam a profundidade do seu amor pela minha essência imutável, e me fazem respondê-lo
N: É, você não costumava falar isso.
E: Não estrague o momento com essas suas piadinhas de sempre.
N: Desculpe, é inevitável, mas me conte o que de novo trás do mundo.
E: Bom, você sabe, eu sempre me envolvo com humanos por curtos períodos de tempo. Como você disse, ele me amam apenas por uma fase. Já você constrói longas amizades na sua velha casa de sempre.
N: Sim, bons amigos...
E: Mas encontrei alguém diferente. Alguém que ultrapassou fases diferentes.
N: Interessante, e você parece ter encontrado algum sentimento igualmente transcendente.
E: Sim, exatamente. Estou concluindo que ela é alguém como nós...
N: Quer dizer que existem mais pares como nós? Bom, é claro, isso não muda minha situação...
E: Como sempre...
Talvez seja uma Evchan, e por ter a mesma essência imutável dentro de si que me ama e a qual eu amo.
...
Espere, você disse que isso não muda sua situação, mas se isso me afeta, naturalmente...
N: ... irá me afetar também.
Sim, mas continuarei um Nevchan e você um Evchan.
E: Claro, não tinha percebido, mas aquilo que não muda em mim é parte de você e...
N: ... o que muda em mim é parte de você em mim. Sim, existimos para nos complementarmos, nos amarmos...
E: ... e a consequência é que somos um parte do outro, e a existência se confunde...
N: ... porque na verdade somos um...
E: Cada conversa nossa...
N: ... é diferente e singular.
E: Eu sempre gosto delas.
N: Boa sorte com sua nova 'descoberta'
E: Te vejo em outros 10 anos.

4-)Conclusão:
A este ponto, o estudo se tornou desnecessário em face da futilidade da vida humana ridiculamente esquecida de si mesma, e será prosseguido quando o conhecimento atingir níveis desinteressantes da alma incomensurável.
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