Produção

Viva la Verdad

Sonho meio-acordado de menino
os olhos de azul-de-céu deslumbrados
Garanto que não
não posso garantir
a rota dessa flâmula ensangüentada
é filha do leme distante do meu punho
só me dizem para manobrar as velas
quando o sopro não atinge sequer meus cílios

Só o peso do menino
o frágil mastro da vida agüenta
lá sopra o vento do horizonte
sabe do fim da viagem
mas todo o mar está em sua íris
e o passado lhe marca os cabelos
sim, agora esvoaçantes
rebatendo as cordas soltas
e o Sol nasce, como se explodisse

Foi assim em algum momento do passado...

Pedras pequenas e escorregadias preenchiam a pequena estrada. O menino observava os pequenos brilhos com interesse. Talvez não soubesse ao certo o que significava aquele lugar. Talvez ninguém saiba. Havia uma placa, mas não conseguia ler o que estava escrito. Parecia um aviso. O caminho continuava adiante, logo desaparecendo em curvas misteriosas. Virou-se para observar as duas figuras que o seguiam.

We Always Say

I hold my breath
I seek the ground
For all the tears that come
I guess they miss you, yeah they do

We're all together
In a shadow of heaven
Just eyes and smiles
Only meant to be unforgettable

Oh, it always have to end
Yeah, we always say goodbye
But it never really ends
And we always say...

And we always say
And we always feel
And we always miss you forever

And we always wave
And we always remember
And we always say we love you

Protestos do dia naciturno

O Sol se ergueu de manhã
e tudo foi se colocando debaixo dele
Todas as flores brancas de outono
debatem sérias
deliberam com minha memória
e decidem ser novas
e elas nem têm argumentos
Entretanto, o ar soa convincente
e o vento leva as folhas somente
porém, gritam que não são as de nunca

Antes coçava a cabeça
hoje bebo um bom gole do vinho novo
e a cada passo na calçada dessa vida
sinto que nasci ontem
e pouco me importa o resto

O Sol se pôs hoje de noite
mas nada virou de cabeça pra baixo
O hoje já virou ontem

Diálogo

Tá bom,
eu admito...
Cada um se encaixa numa fenda
do intrincado e abstrato desenho
de milhares de rachaduras
que se espalha pelo meu eu.

Não,
não me pergunte...
Porque a resposta vai partir do racho
e eu nem os conheço direito ainda.
Talvez seja o gosto amargo-doce de consciência
ou o arauto quase-insuportável da desistência.

Sim,
pode ser
que um dia os buracos se tornem gente
e as gentes se conversem assim, numa boa
e não me preocuparei mais com elas
mas com certeza algumas têm que morrer

No fim
não importa muito

Flutuações Incertas

Cansado, a cabeça não sabe onde está
o abismo dos fluidos sentimentos
escorre-se catastrófico
e sobre o resto daquilo que foi desejo
jaz a carcaça putrefata de um animal horrendo
Os abutres avistam com olhos afiados
e a refeição do mais apetitoso remorso
embate-se no horário da culpa

Não se sabe se se remói
ou talvez se ande adiante
como criança em face de uma decisão
perdido como um cego num furacão

Num dia escuro de penhascos e rochas cortantes
uma luz insiste em brilhar
Raios da sentença que excede a justiça
vêm do infinito além-mar, tocar-me

A fera do orgulho, indomável,
combate o ser e seu eu.
na dúvida que me resta
decido... Tenho que decidir
a segurar na única certeza
o chão sólido, que uma vez não foi,
mas que será rocha até o nunca,
esperar o vento morte passar,
pois já não me pode carregar
Só restará o núcleo de uma verdade
Ele é brilhante, e sozinho assassina as sombras de meu mundo

Uma ovelha erra, estúpida
se desespera
esquece que há um quem atrás do cajado
a terra seca das cinzas lhe enjoa
pensa inutilmente que a comeu pela manhã
não sabe mais da cor verde dos campos
logo lhe parece que o Sol nunca existiu

Mas insiste a aurora
arrasta a teimosia para trás
mostra-se grande aos olhos esquecidos
e só lhe resta o doloroso e alegre confessionário
lhe sobram as sinceridades
e a desistência de uma luta impossível,

ou não...
Sinto a indignidade
com o peso das muitas pedras
feitas em cinzas
mas não há nem o quê de surpresa
pois assim, da fraqueza se faz a força,
e da escuridão se faz a luz.

A teoria e a prática

É muito comum ouvir, nas mais diversas áreas da vida, que a prática é muito mais importante que a teoria. Frases como "Na teoria, funciona, mas na prática não", "Chega de teoria", "Não adianta nada saber a teoria" exaltam um sentimento muito comum na pós-modernidade, que é o cansaço e a desistência com relação à profundos ensaios teóricos. Já está interiorizado, e fazemos sem pensar (aliás, o próprio "fazer sem pensar" é parte disso), mas nunca é tarde para refletir sobre isso.

Fotografias Anti-Estáticas

Os olhos viraram pra dentro
vermelhos, cansados
toda escuridão e barulho
todo chão à frente, longe e cinzento

Já não há esforço nos pés
não sabem qual direção

Todas as respostas, azuis
sobrevoam o mar infinito
fazendo-se questões de abismo
insolúveis, irremediáveis.

Os impostos, a lei
o homem e seu sábado
sábado de espigas e pães
uma luz sobre o mistério

E aquele que erra,
constantemente, perdido em mil encruzilhadas
sabe o que é, ou não
só conhece a distância, escura, imensurável

Excesso de Informação...

... falta de compreensão.

(só pra manter a média mensal)

A Ponte

"Eco, eco, eco".

Brincava o menino próximo ao precipício. Era uma fenda que descobrira à pouco. Nem podia ver direito o fundo dela. Era bem grande e não podia contorná-la também. Logo se cansou do eco, e passou a observar com curiosidade o outro lado. Era parecido com o seu lado, com diferenças em alguns detalhes. Às vezes os detalhes eram tão marcantes que parecia outro mundo. De repente, notou a existência de algo que se movia, gracioso. Olhou melhor, e viu que era uma menina. Acenou para ela, e ela logo retribuiu. Já estava observando-o anteriormente.

"Olá!"

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