Produção

Na viagem se pensa essas coisas...

Eu faço poesia
porque não quero ser eu
Não é que quero ser outro
só não quero ser quem sou

Fazer poesia pra mim
é quebrar-me a mim mesmo
é evaporar-me
volatilizar minha essência
e fazer dela uma com o todo

Vejo então, na poesia
que lá estou inteiro
lá está Deus, e seu filho
lá estão todos!
e não se reconhece bem de mal

Na poesia, se vê essência
mais que isso, existência
se encontra o caroço da pureza
a pura verdade sem começo
nem fim, nem antônimo

Só sei que é lá que quero estar
e quero você comigo.

Rascunho nº 1

São muitas as odisséias que me trazem
ao encontro desse pequeno lápis
e seu cansado diário de bordo.
É aquela voz de dentro, voz de fora
que vem de outrora iluminar o agora
será a vida que tanto muda seu sabor?
a voz dos céus etéreos, sólida e pesada?
a inconstância da humanidade ao meu redor?
ou a certeza deste mundo se desmoronar ainda hoje...
Sei só que preciso deixar voar esse pardal
há muito que vivi e não se tornou poesia
Mentira crassa, melhor poesia não há
do que a que nunca chega aos versos.
Mas quem poderá lê-la?

Horizonte distante-ante-ante...

"Ufa!", terminou de subir no morro. O menino já estava cansado. Sentou e vislumbrou os arredores. Sorriu. De fato, o viajante estava certo, era um novo horizonte. Mas não era o primeiro. Ele se lembrou de tantos outros do passado. Aprendeu que por maior que pareça um horizonte, não se pode ver tudo nele. Tem horizontes vizinhos, tem horizontes opostos, tem até aqueles horizontezinhos dentro dos maiores. Cada um é único, importante.

Oração nº 124 - Tomo MMIX

Senhor, livrai-me de mim
eu que decido e não sigo
Mau com cara de bom
vivo a tentar não errar
Eu que quero mas ignoro
faço o que me agrada
No fim, é o que na garganta entala
Só me resta, de testa no chão
confissão, esperança.
Sei que quem me dá essa vida
vai me ensinar a vivê-la
Ela, que me sustenta
o último estado de consciência
único caminho, graça.

Abril já tá acabando...

Quantas páginas faltam pra acabar?
É o último capítulo já?



Começo mais um livro? Ou termino os outros?
Leio até o "O FIM"? (Leio o prefácio e a introdução também?)

Sigo em frente?

Será que a gente quer mesmo que acabe o livro? Ou só quer poder lê-lo inteiro e se exibir pra si mesmo? Ou quer terminar um pensamento, entender uma pessoa, por título numa poesia?

Tem gente que se veste de rebelde inovador, põe mil títulos, não põe título, começa a ler um livro e abandona outro, não lê nada, escreve sem pensar, foge... Só tá fugindo, mas ainda assim quer se exibir...

E tem gente que se cansa, que prefere ser invisível, na esperança de no fim ter terminado pelo menos uma boa poesia. Uns quatro versos "malemal" rimados que sejam tudo, que não sobre nada fora deles.

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Sou um ponto
perdido em espaço infinito
ou tenho algo como uma reta
um milhão de pontos adiante

Ainda um ponto assim
tanto quanto são
também sou interrogação
Tanto que sei
sei ser reta a reta
e seu pontos marcados, finais
final Certo
e finalmente
também não sei

Porque se interrogo
(e não sei porque questionar)
se desfaz num instante
desce pelo ralo
desintegrado
milhares de pontos, cacos
vasos quebrados
Eu não sei onde estou
mas sei que estou
O tanto que interrogo sem resposta
e pranto que rogo sem um sinal

Eu e o Resto Do Mundo ou O Fabuloso Mundo Desconhecido do Amor ou Muita Chuva Lá Fora

Tem algo que eu quero escrever. Algo sobre amor. Sobre como quando, em consciência maior de sermos íntimos de outro, experimentamos a grande ignorância nossa à respeito do amor. Não, melhor, ignorância à respeito de como amar. Porque não somos à esse ponto ignorantes à respeito do amor.

Entre Ratos e Traças...

Algumas vezes o menino resolvia visitar a biblioteca da Ciudad. Não eram motivos excusos como tédio ou ócio que o levavam lá, mas também nenhum motivo muito especial ou urgente, nenhuma necessidade específica. Era apenas o dia de ir lá, o céu dizia isso. E caminhava só, sliencioso, por entre as muitas estantes, como se estivesse à comer as introduções sem lê-las, só pra poder escolher algo interessante para se ler.

Minha primícia?

Espalha-se o meu eu como se espalharam seus seguidores. Sem entender nada, apavorados e sem fé, cada qual escondido em um canto sem esperança. Não entendendo nem passado, agora apenas um amontoado desorganizado de vagas lembranças, nem presente, choram pateticamente, nem mesmo de luto, talvez, mas como crianças imaturas quando não encontram mais os pais, ainda que tivessem sido avisadas.

E não me arde o coração, quando me fala dos livros e de sua vida, e de todo o Universo?

Dois Anos

Como é de costume, o dia amanheceu nublado. Céu de muitos cinzas. A Ciudad esteve em intensas atividades ultimamente, acromática. Esqueceu-se de si. Não totalmente, nunca totalmente.

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