Produção

Utopia rima com poesia

Um sonho pode se realizar?
Ou será sempre névoa
perfeita nuvem em céu azul
inalcançável, intangível.

Um desejo às estrelas
não é tolice?
São bolas de fogo
distantes, indiferentes.

A luz da lua
tranquila, serena
não abranda o perigo
a noite segue aterrorizante

Também o Sol
energia necessária
não traz alimento à mesa
nem desfaz nossa tristeza

A música não embala
a palavra não conforta
o riso é forçado
a poesia está morta
a poesia está morta!

Gritam mil homens, cabeças pensantes
Jalecos
Gravatas

- A poesia está morta!

Aponta-me o dedo
pontiagudo
a ponto
de penetrar

Você já não vive
nunca viveu

Mas escrevo este verso
é poesia
sim
a poesia está viva
eu estou vivo

Rio do dedo ridículo
dos homens todos
encontro a palavra
e ela me encontra
Deus fala comigo
Ele existe!

A música de voz suave
harpa, violão, samba da vida
melodia harmoniosa atrevida
chama o cantar do galo
traga-me o Sol!
Ele brilha forte
É meu instinto amá-lo?
Leva embora o medo da noite
Fica a certeza do novo dia

E a Lua, que no aberto
espanta as sombras da noite
trazendo paz em meio ao medo
não devo nela acreditar?

Até mesmo a pequena luz
de muitas estrelas,
não são nossa lembrança
da luz que afugenta as sombras?
Por que não desejar dessa memória
a esperança do dia sem trevas
da alma iluminada?

A poesia me leva
flutuo além das nuvens
elas existem como os sonhos
são diferentes de perto
exigem coragem
mas são vida

Ninguém vai matar a poesia
a palavra é o próprio amanhã

Flores

Texto de 18 de janeiro de 2012

Estou cultivando minhas próprias flores. Cuido da terra, visito-as diariamente, observo seu crescimento, se o solo está úmido. Olha, uma folha nova! Puxa, as formigas não as deixam em paz. Como crescem as ervas daninhas ao redor.

Estou aprendendo mais a amar. O poder de argumentar não serve para criar flores. Aliás, nada substitui o cuidado diário. Poderia pagar alguém para fazê-lo, mas daí não seriam minhas flores. Onde estaria minha relação com elas? Deixar para depois, também não é possível. Reclamar com elas que não cuidam de mim? Não tem sentido.

Sigo aprendendo, me humilhando, pois embora cuide delas, nem a terra que as firma, nem a água que as sacia, nem o Sol que as alimenta, nem a vida dentro delas, são meus. Assim sou, um mordomo cujo serviço a ser prestado é o amor.

Palavras

Ainda estou mais de um ano atrasado nas publicações. Escrito em 25/11/11

O novelo se desfaz - emaranhado ou não, seu estado anterior já não é importante - e o cordão de uma vida se afina. Estreito, mas sem a agilidade de uma corrente de água que sabe, sem saber, que vira rio na colina adiante. É mais uma chama num pavio defeituoso. A luz do quarto diminui e uma história cinza trêmula se desenha na parede. Os mundos nela presentes são todos meus. São - na sua essência criada - eu. Não o eu que sou de fato (e qual seria este?), mas os muitos eus que quero ser. Ou os que finjo ser.

Outrora o que se passava nessas histórias eram feitos grandiosos, inocência inofensiva. Hoje são o passado mais profundo, agora memória. Agarro a memória dessas águas geladas e penetrantes, ao andar num mero espelho úmido, morno e insípido. Escrevo em mais uma tentativa de tirar um peso que sufoca. Meço as palavras, entretanto, temendo que elas me entreguem. Ah, sorrateiras e verdadeira são as palavras. Na calada da noite sobem ao farol e anunciam a nudez do mar. Saltam como pássaros flamejantes, ora abutres cheirando carniça, ora pavões orgulhosos, ora graciosas andorinhas, ora temíveis mergulhões, penetrando o mar que não pode se esquivar.

As palavras querem sair e ser vivas. Guardá-las é um erro até serem soltas. Elas se empoleiram no pescoço, ficam pesadas, fazem cair as pálpebras. As palavras fazem greve, querem ser ouvidas. Mas eu tenho medo delas. Por palavras foi feito o Universo, e por palavras o destino se fecha. O que está oculto aparece, o que está morto vive. O que está em mim e não quero ver, já não posso mais esconder.

E como pode que, ao lançar essas letras, eu me vejo, e vejo o que não via? Será um mistério universal? O porquê de, talvez, serem atribuídos a certas palavras atém mesmo encantamentos sobrenaturais. São chaves de mecanismos que estão em nosso espírito.

Mas essa vida, que já me cansa - não toda ela, mas a do agora - me chama a seguir um novo rumo. Devo abandonar sandálias gastas? Tenho a sensação que já vivi mais que isso, que já bebi mais água da fonte e que agora só molho a boca. O riacho virou filete, a colheita não é mais a mesma. Se andava trinta quilômetros, hoje ando dez e já cansei. as não é a caminhada, ou o Sol mais quente, ou a comida mais escassa. Então pergunto: o que é? Minha solidão?

Palavras que, ao voltarem sem encontrar destino, como cartas retornando ao remetente, perdem sua razão de ser. Como caminhar sem ter um destino. A força para ser se esvai com preguiça e desânimo a ver que ser ou não ser não é tanto a questão.

Espelhos

Ontem ouvi de uma moça que falava sobre tentativas de fazer dieta. Ela determinava o tipo de alimento que comeria, mas acabava comendo escondida de si mesma.

A gente se esconde de si?

Vampiros, diz a lenda, detestam espelhos. Talvez porque os espelhos os lembrem de que estão mortos, que não são mais humanos, que não deveriam existir.

Me pergunto se não nos escondemos de nós mesmos, evitando espelhos, evitando conversas e relacionamentos que nos revelem nosso interior.

Espera

Belas palavras
flores de primavera.
Pétalas derrubadas
na chuva pisadas.
Escuras
podres...

Seus restos mortais
sujam os tapetes
Assim se esvaem
pensamentos, idéias

Ficam as pedras,
inertes, imutáveis,
duras, ásperas.
Esperam as pedras
esperam...

A chuva corrói, o vento castiga
Anos à fio, pisadas
Sol, lua, escuridão, calor e frio
mas esperam as pedras.
Esperam.

As flores se vão
Pétalas voam em espetáculo
enchem os olhos que nem notam
o chão, sustentando...
mas esperam as pedras...
Esperam!

Espera a pedra no meu peito
ora pétala logo murcha
espera o Sol nascer
a vida amanhecer
e não ser mais pedra
até lá
espera...

Depois de uma tarde de cinema

Era fim de tarde, fim de semana, dia dos namorados... e era o fim do filme. Já estava em cartaz há algum tempo, pouca gente na sala para um dia 12 de junho. Descemos as escadarias e, antes de virarmos em direção à saída, notamos no escuro quatro vultos na direção oposta, onde é usual existirem saídas nestas salas. Curioso, caminhavam lentos, e nada havia no canto para o qual se dirigiam. No escuro, vi bengalas tateando. Eram cegos.

Hortências e Perroxil

Escrevi essa reflexão pessoal em 17/01

Na terça passada, meu avô veio a falecer. Ele já estava mal, eu estava longe, a noticia não me surpreendeu. Fiquei até pensando na minha insensibilidade perante o acontecimento, principalmente por boa parte da família estar lá.

Eu não convivi com meu avô, só o via uma vez a cada 2 anos, mais ou menos. Os encontros breves, sem grande profundidade. Talvez por meu avô ser mais reservado, embora sempre carinhoso e bonachão. Lembro de ir em sua casa poucas vezes, mas sempre gostei de ir lá. As memórias aos poucos se desmancham, se enfraquecem.

Hoje, descobri que hortências mudam de cor conforme a acidez do solo. Hortência que ganhei do meu outro avô. Me faz pensar a natureza das relações e como depende de nós cultivá-las. Podemos sempre dizer que depende do outro também, mas isso não nos isenta de nosso lado. Ao acordar de manhã, penso nas pessoas ao meu redor, em manter viva a memória. Leio uma história de meu tio, uma memória dele com meu avô, preservada por 50 anos, eternizada. Uma simples memória de uma aventura, transformada numa relevante metáfora sobre o falecimento do meu avô, cheia de significado. Aí sim, senti pelas palavras tão curtas e simples, sem rodeios, a relação de afeto que nos une. Mais do que unir um pai com um filho, une toda uma família, une todos nós, talvez. Chorei. Li de novo. Chorei de novo.

Enquanto vivemos nos cabe eternizar memórias e momentos. Um dia possivelmente estaremos todos juntos relembrando, revivendo, transformando simples experiências em tesouros. Fica em mim um sentimento, de que meu avô esteja em paz, terminado seu sofrimento, sua travessia. E fica a vontade de cuidar das hortências, para que, assim como memórias de experiências de convívio, floresçam no futuro.

Auto-análise

Visto cetim e camisa, mas é de pano de saco que se cobre meu interior. Olho no espelho e contemplo a infindável ambiguidade. Paradoxos e contradições dançam em meio à incerteza. Quem dera tivesse uma bengala, um chão para pisar.

Nós deixamos de nos auto-analisar porque queremos cegamente proclamar nossa auto-libertação. É terrível esse vislumbre, estar perto estando longe, estar errado estando certo, ou o contrário: ser pecador.

Chego ao desafio máximo do amor, a exigência final do caminho, a maior transgressão, pois descubro no meu ser meu maior inimigo, e eu o odeio.

Devo portanto morrer, e já cansei dessa repetição.

-
Escrevi a quase um ano, estou meio defasado mas aos poucos alcanço.

Ordem do dia

No que se resume um dia? Em transgressão. Meu dia se faz feliz quebrando a ordem. Eu finjo que construo-a, mas sem medo eu invisto no amor, na beleza, no estar junto. Ter para compartilhar, possuir apenas o que precisar. Transgredir é amar, é desordenar, é viver em tendas.

Introspecção

Quando isso tudo acabar
vou pensar e sentir.
Quando passar esse vendaval
vou abrir a janela
fechar os olhos
e mirar o espelho
dentro de mim.

Eu resisto, sou o remanescente
luto contra mim mesmo
mas às vezes não sei por quê.

O dia se ergue, múltiplo
apresenta-se em tantas trilhas
em cruel ironia
Fico a admirar dias que não são meus
perco o interesse na minha trilha.

É por querer ser quem não sou?
culpas novas e velhas?
é como se me parecesse
que todos os seres me desprezam
embora ostentem sorrisos
e em vão tento fazer
para ser bom
aos olhos
que caem
desanimados.

O deserto se abre
mais uma vez me convida
ao tempo de sentir e pensar
e viver pisando na areia
esta e mais nenhuma
contemplar um horizonte
imutável, grandioso
seguir a nuvem à frente.

É tempo de pisar firme
de morrer
Deixa morrer
tudo aquilo que nunca viveu.

--
Imagem de Jay Axer

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