Liberdade é amar como se o mundo hoje terminasse sem que sua própria vida fosse importante

Conversa de outono

Lágrimas de um céu cinzento
Outono que se estende pela fronteira
intangível, suas folhas secas flutuam
repousam em nosso ser

São palavras murmuradas, sinceras
folhas que precisam cair e dar passagem
mas voam ainda, pela primeira e última vez
contam sua história, que ouço

Seu coração se abre como nunca antes
e dele flui a harmonia dissonante da vida.
Os pés gelados caminham, morro acima
celebram o vento frio e os temores
a bela condição humana

Incertezas vividas e revividas
tais quais se veem nessas folhas
Ao que se compara uma experiência?

Meus olhos enchem, já não sei
se pelo vento ou empatia, tanto faz
Quem pode separar o amor do abraço,
o espírito da carne?

Escrevemos a história, nosso tesouro,
nestas páginas que nos deram
não se pode escrever em outras
Imperfeitos, inconstantes, inseguros
seguimos nosso caminho, no amor e coragem

Utopia rima com poesia

Um sonho pode se realizar?
Ou será sempre névoa
perfeita nuvem em céu azul
inalcançável, intangível.

Um desejo às estrelas
não é tolice?
São bolas de fogo
distantes, indiferentes.

A luz da lua
tranquila, serena
não abranda o perigo
a noite segue aterrorizante

Também o Sol
energia necessária
não traz alimento à mesa
nem desfaz nossa tristeza

A música não embala
a palavra não conforta
o riso é forçado
a poesia está morta
a poesia está morta!

Gritam mil homens, cabeças pensantes
Jalecos
Gravatas

- A poesia está morta!

Aponta-me o dedo
pontiagudo
a ponto
de penetrar

Você já não vive
nunca viveu

Mas escrevo este verso
é poesia
sim
a poesia está viva
eu estou vivo

Rio do dedo ridículo
dos homens todos
encontro a palavra
e ela me encontra
Deus fala comigo
Ele existe!

A música de voz suave
harpa, violão, samba da vida
melodia harmoniosa atrevida
chama o cantar do galo
traga-me o Sol!
Ele brilha forte
É meu instinto amá-lo?
Leva embora o medo da noite
Fica a certeza do novo dia

E a Lua, que no aberto
espanta as sombras da noite
trazendo paz em meio ao medo
não devo nela acreditar?

Até mesmo a pequena luz
de muitas estrelas,
não são nossa lembrança
da luz que afugenta as sombras?
Por que não desejar dessa memória
a esperança do dia sem trevas
da alma iluminada?

A poesia me leva
flutuo além das nuvens
elas existem como os sonhos
são diferentes de perto
exigem coragem
mas são vida

Ninguém vai matar a poesia
a palavra é o próprio amanhã

Flores

Texto de 18 de janeiro de 2012

Estou cultivando minhas próprias flores. Cuido da terra, visito-as diariamente, observo seu crescimento, se o solo está úmido. Olha, uma folha nova! Puxa, as formigas não as deixam em paz. Como crescem as ervas daninhas ao redor.

Estou aprendendo mais a amar. O poder de argumentar não serve para criar flores. Aliás, nada substitui o cuidado diário. Poderia pagar alguém para fazê-lo, mas daí não seriam minhas flores. Onde estaria minha relação com elas? Deixar para depois, também não é possível. Reclamar com elas que não cuidam de mim? Não tem sentido.

Sigo aprendendo, me humilhando, pois embora cuide delas, nem a terra que as firma, nem a água que as sacia, nem o Sol que as alimenta, nem a vida dentro delas, são meus. Assim sou, um mordomo cujo serviço a ser prestado é o amor.

Palavras

Ainda estou mais de um ano atrasado nas publicações. Escrito em 25/11/11

O novelo se desfaz - emaranhado ou não, seu estado anterior já não é importante - e o cordão de uma vida se afina. Estreito, mas sem a agilidade de uma corrente de água que sabe, sem saber, que vira rio na colina adiante. É mais uma chama num pavio defeituoso. A luz do quarto diminui e uma história cinza trêmula se desenha na parede. Os mundos nela presentes são todos meus. São - na sua essência criada - eu. Não o eu que sou de fato (e qual seria este?), mas os muitos eus que quero ser. Ou os que finjo ser.

Outrora o que se passava nessas histórias eram feitos grandiosos, inocência inofensiva. Hoje são o passado mais profundo, agora memória. Agarro a memória dessas águas geladas e penetrantes, ao andar num mero espelho úmido, morno e insípido. Escrevo em mais uma tentativa de tirar um peso que sufoca. Meço as palavras, entretanto, temendo que elas me entreguem. Ah, sorrateiras e verdadeira são as palavras. Na calada da noite sobem ao farol e anunciam a nudez do mar. Saltam como pássaros flamejantes, ora abutres cheirando carniça, ora pavões orgulhosos, ora graciosas andorinhas, ora temíveis mergulhões, penetrando o mar que não pode se esquivar.

As palavras querem sair e ser vivas. Guardá-las é um erro até serem soltas. Elas se empoleiram no pescoço, ficam pesadas, fazem cair as pálpebras. As palavras fazem greve, querem ser ouvidas. Mas eu tenho medo delas. Por palavras foi feito o Universo, e por palavras o destino se fecha. O que está oculto aparece, o que está morto vive. O que está em mim e não quero ver, já não posso mais esconder.

E como pode que, ao lançar essas letras, eu me vejo, e vejo o que não via? Será um mistério universal? O porquê de, talvez, serem atribuídos a certas palavras atém mesmo encantamentos sobrenaturais. São chaves de mecanismos que estão em nosso espírito.

Mas essa vida, que já me cansa - não toda ela, mas a do agora - me chama a seguir um novo rumo. Devo abandonar sandálias gastas? Tenho a sensação que já vivi mais que isso, que já bebi mais água da fonte e que agora só molho a boca. O riacho virou filete, a colheita não é mais a mesma. Se andava trinta quilômetros, hoje ando dez e já cansei. as não é a caminhada, ou o Sol mais quente, ou a comida mais escassa. Então pergunto: o que é? Minha solidão?

Palavras que, ao voltarem sem encontrar destino, como cartas retornando ao remetente, perdem sua razão de ser. Como caminhar sem ter um destino. A força para ser se esvai com preguiça e desânimo a ver que ser ou não ser não é tanto a questão.

Espelhos

Ontem ouvi de uma moça que falava sobre tentativas de fazer dieta. Ela determinava o tipo de alimento que comeria, mas acabava comendo escondida de si mesma.

A gente se esconde de si?

Vampiros, diz a lenda, detestam espelhos. Talvez porque os espelhos os lembrem de que estão mortos, que não são mais humanos, que não deveriam existir.

Me pergunto se não nos escondemos de nós mesmos, evitando espelhos, evitando conversas e relacionamentos que nos revelem nosso interior.

Linhas anarquistas nas Escrituras: um compêndio sobre anarquismo cristão, parte 3 (de 5)

Artigo de autoria de Mark Van Steenwyk[Inglês]

Para a maioria dos cristãos, existe um grande motivo para rejeitar o anarquismo: ele não é bíblico. Ou é? Uma leitura superficial da Bíblia revela um Deus que se auto-define como uma espécie de Rei-guerreiro, sanciona genocído promovido pelo estado e promove uma dinastia de reis santos, como o Rei Davi. Quando Jesus chega, vem para começar um Reino de Deus que, aparentemente, se contenta em co-existir com um reinado terreno. Na verdade, o próprio Jesus diz: "dai a César o que é de César", e Paulo exorta os cristãos a serem bons súditos às autoridades governantes. Portanto, Anarquismo cristão é uma contradição em termos, certo?

Espera

Belas palavras
flores de primavera.
Pétalas derrubadas
na chuva pisadas.
Escuras
podres...

Seus restos mortais
sujam os tapetes
Assim se esvaem
pensamentos, idéias

Ficam as pedras,
inertes, imutáveis,
duras, ásperas.
Esperam as pedras
esperam...

A chuva corrói, o vento castiga
Anos à fio, pisadas
Sol, lua, escuridão, calor e frio
mas esperam as pedras.
Esperam.

As flores se vão
Pétalas voam em espetáculo
enchem os olhos que nem notam
o chão, sustentando...
mas esperam as pedras...
Esperam!

Espera a pedra no meu peito
ora pétala logo murcha
espera o Sol nascer
a vida amanhecer
e não ser mais pedra
até lá
espera...

Depois de uma tarde de cinema

Era fim de tarde, fim de semana, dia dos namorados... e era o fim do filme. Já estava em cartaz há algum tempo, pouca gente na sala para um dia 12 de junho. Descemos as escadarias e, antes de virarmos em direção à saída, notamos no escuro quatro vultos na direção oposta, onde é usual existirem saídas nestas salas. Curioso, caminhavam lentos, e nada havia no canto para o qual se dirigiam. No escuro, vi bengalas tateando. Eram cegos.

Vestígios anarquistas na História da Igreja: um compêndio sobre anarquismo cristão, parte 2 (de 5)

Artigo de autoria de Mark Van Steenwyk

No artigo anterior, tentei oferecer algumas definições introdutórias de "anarquismo" e de "cristianismo" - ambos demasiado complexos para serem definidos. Este, portanto, traz alguns desafios ao se apresentar uma descrição simples de "anarquismo cristão".

Na parte 2, vou brevemente traçar aqueles movimentos cristãos históricos que expressaram um "impulso anárquico". O que se segue não é de forma alguma exaustivo. Meu objetivo é compartilhar à respeito deles para mostrar que Graeber está certo: "os princípios básicos do anarquismo - auto-organização, associação voluntária, auxílio mútuo - se referiam a formas de comportamento humano que eles acreditaram existir por tanto tempo quanto a própria humanidade."[1] A História Cristã tem uma série de exemplos que demonstram o impulso anárquico e isso se torna interessante para observar as características comuns entre estes grupos. Note que, para a maioria deles, as tendências anárquicas de cada grupo estavam entrelaçadas com suas próprias convicções teológicas. É importante perceber que há algo profundamente incompleto quando imaginamos um anarquismo cristão que simplemente "gruda com chiclete" o cristianismo e o anarquismo de alguém. Não é somente possível, mas (acredito) necessário ter um anarquismo que flui a partir da espiritualidade pessoal (ou, talvez, vice-versa).

Hortências e Perroxil

Escrevi essa reflexão pessoal em 17/01

Na terça passada, meu avô veio a falecer. Ele já estava mal, eu estava longe, a noticia não me surpreendeu. Fiquei até pensando na minha insensibilidade perante o acontecimento, principalmente por boa parte da família estar lá.

Eu não convivi com meu avô, só o via uma vez a cada 2 anos, mais ou menos. Os encontros breves, sem grande profundidade. Talvez por meu avô ser mais reservado, embora sempre carinhoso e bonachão. Lembro de ir em sua casa poucas vezes, mas sempre gostei de ir lá. As memórias aos poucos se desmancham, se enfraquecem.

Hoje, descobri que hortências mudam de cor conforme a acidez do solo. Hortência que ganhei do meu outro avô. Me faz pensar a natureza das relações e como depende de nós cultivá-las. Podemos sempre dizer que depende do outro também, mas isso não nos isenta de nosso lado. Ao acordar de manhã, penso nas pessoas ao meu redor, em manter viva a memória. Leio uma história de meu tio, uma memória dele com meu avô, preservada por 50 anos, eternizada. Uma simples memória de uma aventura, transformada numa relevante metáfora sobre o falecimento do meu avô, cheia de significado. Aí sim, senti pelas palavras tão curtas e simples, sem rodeios, a relação de afeto que nos une. Mais do que unir um pai com um filho, une toda uma família, une todos nós, talvez. Chorei. Li de novo. Chorei de novo.

Enquanto vivemos nos cabe eternizar memórias e momentos. Um dia possivelmente estaremos todos juntos relembrando, revivendo, transformando simples experiências em tesouros. Fica em mim um sentimento, de que meu avô esteja em paz, terminado seu sofrimento, sua travessia. E fica a vontade de cuidar das hortências, para que, assim como memórias de experiências de convívio, floresçam no futuro.

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