Vestígios anarquistas na História da Igreja: um compêndio sobre anarquismo cristão, parte 2 (de 5)

Artigo de autoria de Mark Van Steenwyk

No artigo anterior, tentei oferecer algumas definições introdutórias de "anarquismo" e de "cristianismo" - ambos demasiado complexos para serem definidos. Este, portanto, traz alguns desafios ao se apresentar uma descrição simples de "anarquismo cristão".

Na parte 2, vou brevemente traçar aqueles movimentos cristãos históricos que expressaram um "impulso anárquico". O que se segue não é de forma alguma exaustivo. Meu objetivo é compartilhar à respeito deles para mostrar que Graeber está certo: "os princípios básicos do anarquismo - auto-organização, associação voluntária, auxílio mútuo - se referiam a formas de comportamento humano que eles acreditaram existir por tanto tempo quanto a própria humanidade."[1] A História Cristã tem uma série de exemplos que demonstram o impulso anárquico e isso se torna interessante para observar as características comuns entre estes grupos. Note que, para a maioria deles, as tendências anárquicas de cada grupo estavam entrelaçadas com suas próprias convicções teológicas. É importante perceber que há algo profundamente incompleto quando imaginamos um anarquismo cristão que simplemente "gruda com chiclete" o cristianismo e o anarquismo de alguém. Não é somente possível, mas (acredito) necessário ter um anarquismo que flui a partir da espiritualidade pessoal (ou, talvez, vice-versa).

Então, quais são algumas das expressões de cristianismo que de forma autêntica expressam o impulso anárquico?

Uma breve caminhada pela História

A igreja primitiva, defendem alguns, era anarquista. Claro, isso é uma afirmação ousada. Todos afirmam que a essência da sua versão do cristianismo está expressa na igreja primitiva. Algumas comunidades de cristãos primitivos, porém, parece ter praticado certas qualidades do anarquismo.

Por exemplo, o grupo de Jerusalém, tal como é descrito em Atos, compartilhava seu dinheiro e trabalho igualmente e de forma justa entre seus membros. Também há indicações de fromas de decisão por consenso (Atos 15). Dentro do cristianismo paulino, existem relances de submissão mútua ao invés de uma hierarquia (Efésios 5), e uma compreensão carismática de autoridade na qual nenhuma pessoa poderia falar exclusivamente por Deus... Mas qualquer um poderia manifestar o Espírito (1 Coríntios 12-14), além um igualitarismo fundamental (Gálatas 3 e Colossenses 3).

Algumas pessoas, a exemplo de Ammon Hennacy, afirmaram que occoreu um "desvio", na teologia de Paulo de Tarso, para além das práticas e ensinos de Jesus sobre não-violência, vida simples e liberdade. Hennacy (e outros) sugerem que deveria-se buscar retornar ao "cristianismo pré-paulino". Pessoalmente, se estamos discernindo o que atribuímos a Paulo e procurando entender a complexidade do contexto de Paulo e de sua retórica, podemos ver nos escritos de Paulo (como um relance no início do cristianismo dentro do Império Romano) algo como anarquismo.

Outros apontam mais adiante na estrada envolvendo a relação com o Estado resultando no que muitos chamam de "desvio Constantiniano". Certamente podemos ver nos primeiros séculos da Igreja exemplos de rejeição de religião, economia e violência imperiais. Frequentemente, cristãos viam a si mesmos como uma realidade socio-política distinta que, enquanto não necessáriamente anarquista, certamente tinha elementos similares.  

Beguinas e Begardos eram ordens leigas de mulheres e homens nos séculos XII a XIV. Esses cristãos frequentemente viviam um estilo de vida monástico juntos sem fazer votos formais. As comunidades eram autônomas, fortemente igualitárias e frequentemente desafiavanm distinções de classe. Eles encontram problemas tanto com a Igreja quanto com o Estado, uma vez que Beguinas e Begardos muitas vezes faziam coisas de acordo com seu próprio discernimento comunitário. Muitas beguinas influentes acreditavam numa conexão mística não-mediada com Deus, tornando a estrutura da Igreja (e portanto, do Estado) altemente irrelevantes.  

Alguns Anabatistas (como muitos Menonitas/Amish/Huteritas) viveram em grande parte de maneira autônoma e sem obedecer ao governo secular. Entretanto, tais grupos não eram igualitários e não se consideravam anarquistas. Em seu ensaio sobre anarquismo para a Encyclopedia Britannica, Peter Kropotkin traça o nascimento do pensamento anarquista na Europa à essas primeiras comunidades anabatistas. Afinal, Anabatistas tradicionais frequentemente se separam das funções e práticas do Estado. Normalmente eles também abraçam o pacifismo. Às vezes, praticam propriedade comunal.  

Os Quakers (Sociedade de Amigos) são internamente organizados por linhas anarquistas. Todas as decisões são tomadas localmente e por consenso (o que teve uma enorme influência no processo de decisão do anarquismo moderno) e são muito igualitárias. Enquanto os Quakers não levam tal forma de pensar à uma teoria política anarquista mais robusta, o ponto de vista Quaker sobre poder e violência levou a uma significativa polinização cruzada entre anarquistas cristãos e Quakers.  

Os Dukhobors são um grupo russo de origens desconhecidas (provavelmente surgiram no século XVII). Eles atualmente existem primariamente no Canadá. Os Dukhobors rejeitam o governo secular, a Ortodoxia Russa, a suprema autoridade das Escrituras e a divindade de Jesus. Sua espiritualidade é, como de muitos Quakers, baseada na pressuposição de que espiritualidade verdadeira não é mediada, tornando assim quaiquer estruturas de mediação desnecessárias.  

Os Tolstoianos eram seguidores das visões filosóficas e religiosas do novelista russo Leo Tolstoy (1828-1910). Eles colocam uma ênfase especial no Sermão do Monte e outros ensios de Jesus como um guia para a vida. Eles se identificavam como cristãos apesar de, numa separação de outras formas de cristianismo, procuram se concentrar mais nos ensinos de Jesus como um humano guiado pelo divino do que com o Filho de Deus. Eles não participam, ou se preocupam, com questões governamentais e mundanas, as quais consideram imorais e corruptas. Portanto, eles podem ser descritos como anarquistas, mas nem todos reinvindicavam esse título para si. Eles abraçavam um profundo pacifismo, recusando-se a se defender, e muitos era vegetarianos ou veganos. Tolstoy teve uma gigantesca influência em Gandhi (e no desenvolvimento da não-violência) e no anarquismo europeu em geral. É importante destacar que Kropotkin reconheceu o Anarquismo Cristão (este desenvolvido por Tolstoy) como uma de quatro vertentes do anarquismo em sua época (início do śeculo XX). As outras eram anarco-comunismo, proudhonismo [mutualismo] e anarquismo literário [anarquismo individualista].  

Os Trabalhadores Católicos (Catholic Workers Movement) (em especial seus fundadores) encontraram uma base sólida honesta entre uma leitura relativamente "conservadora" das Escrituras e o anarquismo político. Seu modo de vida gira em torno da prática de obras de caridade, crença no personalismo, e na vida comunitária seja em casas de hospitalidade [2] ou comunas agrárias [3]. Os trabalhadores estiveram profundamente envolvidos nas resistências anti-guerra e anti-nuclear, e mais recentemente, têm sido atuantes no movimento anti-globalização.  

Teologia da Libertação em geral, e as Comunidades Eclesiais de Base em especial não eram anarquistas em si, mas dentro desse movimento tem ocorrido uma grande releitura da autoridade da Igreja e do Estado. A maior parte dos liberacionistas apresentam uma clara inclinação socialista, mas existem aqui e ali algumas faíscas anarquistas. Dentro da gama de práticas e interpretações há uma tendência à democratização em formas que se aproximam ao anarquismo. Alguns liberacionistas se inspiraram em pessoas como Dorothy Day e Tolstoy, etc. Enquanto a influência do pensamento marxista foi bastante pesquisada, não se tem dado muita atenção às influências anarquistas na Teologia da Libertação[4]. Ainda assim, para muitos cristãos anarquistas a Teologia da Libertação fornece o solo intelectual mais fértil para desenvolver uma fé que integra espiritualidade e pensamento político.

Existem, é claro, outros grupos válidos a serem mencionados. Muitos foram influenciados por estes movimentos que tocam em um aspecto do pensamento anarquista - como a visão de Francis sobre riqueza, a forma de organização de Wesley em pequenos grupos de fé e prática, o estilo de vida e mutualismo monástico, etc. Mas espero que essa visão geral sirva como um aperitivo.

Expressões cristãs anarquistas hoje

A maior parte dos cristãos anarquistas que conheci se relaciona com algum dos movimentos listados. Mas a maioria não emergiram destes grupos. Encontrei cristãos anarquistas que se juntaram ao Movimento dos Trabalhadores Católicos, se tornaram menonitas (como eu mesmo) ou participaram de uma reunião dos Quakers. Mas, em sua maior parte, cristãos anarquistas contemporâneos emergiram de círculos decididamente majoritários e radicalizaram em direção ao anarquismo.

Muitos dos cristãos anarquistas na América do Norte tiveram seu primeiro contato com idéias anarquistas nas obras de Shane Claiborne ou Greg Boyd. Outros, com mas inclinação talvez mais intelectual, encontraram seu caminho para o anarquismo cristão lendo Jonh Howard Yoder ou Stanley Hauerwas, ou talvez Jacques Ellul. Na minha opinião, a rede anarquista atualmente mais forte na América do Norte permanece sendo o movimento dos Trabalhadores Católicos. A Jesus Radicals tem desempenhado, ao longo da última década, um modesto papel na formação de redes e ajuntamentos de anarquistas cristãos (principalmente nos Estados Unidos). Outras redes e ajuntamentos notáveis que têm sido de certa forma próximas ao anarquismo cristão norte-americano são Papa Fest e o não tão interligado movimento do Novo Monasticismo[5]. De qualquer forma, o anarquismo cristão está em ascendência. Entretanto, não está se agrupando em torno de uma figura, organização ou movimento populares. Isso é, de muitas maneiras, como deveria ser (apesar de que alguma organização certamente precisa ser trabalhada).

Penso que seria interessante mencionar as diferenças entre ser anarquista em relação ao governo (mas não em relação à igreja, como por exemplo os Trabalhadores Católicos) e ser mais anarquista em relação à igreja (mas não tanto em relação ao governo, como os Quakers). Parece que o primeiro está mais focado na centralidade da Igreja e em como as Escrituras revelam Jesus enquanto o último emerge de uma crença na presença do Espírito Santo para governar e guiar um indivíduo.

Algumas reflexões

Então o que podemos aprender sobre essa caminhada pela história? Como ela afeta nossas vidas neste tempo? Estou aberto a acolher seus próprios pensamentos, mas apresento aqui seis questões levantadas por esta breve lição de História:

  1. Cada qual desses grupos, de alguma forma, foi considerado herético pelos grupos religiosos dominantes de sua época. Isso pode parecer algo meio "Não me diga...", mas se um grupo religioso é dominante, ele não vai gostar de tendências anti-autoritárias entre seus seguidores religiosos. Dado esse histórico, não devemos esperar que as denominações por vontade própria se direcionem ao anarquismo.

  2. Muitos desses grupos são "heréticos" (ou pelo menos flertaram com "heresia") em mais de uma área. Se formos intelectualmente honestos, nossos impulsos anárquicos irão afetar mais do que simplementes nossa visão do governo. O impulso anárquico nos leva a repensar todas as relações, incluindo nossa relação com a autoridade espiritual (o que pode também incluir a Bíblia e Jesus). Isso não significa que precisamos abrir as portas da heresia. Mas indica que que o impulso anárquico não caminha pacificamente com qualquer expressão majoritária de cristianismo.

  3. A maior parte dos grupos cristãos radicais ou morre ou se junta à corrente. Devemos aprender com os grupos que ainda existem e continuam contra-corrente.

  4. Vocês podem notar uma grande lacuna entre a igreja primitiva e as Beguinas. Certamente existiram grupos anarquistas nesse período... E tenho até mesmo forte suspeitas de como eram. Entretanto, não há muita informação sobre grupos marginais durante os séculos nos quais muitas heresias foram suprimidas tão veementemente que se torna difícil conhecer algo sobre esses grupos além de caricaturas de seus adversários. Isso não significa que tais grupos eram interessantes e dignos de serem imitados. Mas simplesmente não sabemos o quanto esses grupos poderiam nos inspirar em nossos atrapalhados esforços de viver com fé em meio à civilização. Mesmo que pareça desnecessário numa era da mídia, é importante que passemos às próximas gerações nossa sabedoria. Mesmo durante minha vida tenho visto lacunas de comunicação entre radicais mais velhos e minha geração (ou mais jovem). Precisamos aprender como compartilhar nossos melhores "insights". Precisamos nos tornar evangelistas de uma forma que suberta os esforços de supressão.

  5. Enquanto alguns grupos inflenciaram grupos posteriores, não existe uma corrente sucessiva de cristianismo radical. O impulso anárquico não foi passado adiante pelas eras como um bastão. Ao contrário, ele emerge. Devemos nos maravilhar e respeitar a realidade de que o Espírito de Deus cria anarquia. Devemos nos abrir para o que quer que venha a surgir, o que pode não acontecer no lugar que esperamos. Isso, parece, requer de nós uma postura de abertura e esperança de que, mesmo no menos provável dos lugares, a vida irrompe como uma planta que cresce através da rachadura de uma calçada.

  6. Todos os grupos (com exceção dos tolstoianos) mencionados tiveram fundadores e influenciadores que eram místicos. E mesmo que Tolstoy não fosse um místico, ele mesmo desenvolveu um tipo de misticismo da natureza posteriormente em sua vida. Na sua obra The Silent Cry, Dorothee Soelle aponta a natureza mística da libertação. Seria sábio de nós basear nosso anarquismo num verdadeiro misticismo - tal que abraça um certa impetuosidade selvagem que nos permite amar num mundo sem amor. Tal que nos mostre um relance da realidade que ainda não podemos ver.

Em meu próximo artigo, vou oferecer uma breve visão de uma linha anarquista nas Escrituras. Posteriormente, vou apresentar meus pensamentos sobre as tenções entre os "anarquismos" modernos e cristianismo anárquico. Por fim, vou oferecer uma proposta construtiva que aponta para uma aproximação integrada do caminho anárquico de Jesus que afirma o melhor de nossas tradições e evita a armadilha de uma mistura simplista de cristianismo e anarquismo.

  1. de Graeber’s Fragments of an Anarchist Anthropology, p. 3
  2. houses of hospitality (N. do T.)
  3. farming communes (N. do T.)
  4. Para um raro exemplo, consulte The Anarchist Dimension of Liberation Theology de Linda H. Damico
  5. New Monasticism (N. do T.)

Fase

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