Uma divina impossibilidade: um compêndio sobre anarquismo cristão, parte 1 (de 5)

Artigo de autoria de Mark Van Steenwyk, traduzido por mim.

De forma geral, a Jesus Radicals tem como objetivo explorar a intersecção entre o cristianismo e anarquismo. A maioria das pessoas acha que tal combinação é impossível (ou é uma ilusão). Também seria um engano pensar essa combinação como uma mera novidade. A maioria das reações negativas a esse diálogo é fruto de mal-entendido. A maioria das pessoas pressupõe que anarquismo é algo para jovens enraivecidos que desejam o caos e a desordem. Outras pessoas pressupõem que o cristianismo é (e sempre foi) dominação. Ambos são infelizes estereótipos que, apesar de encontrarem alguma base na realidade, são rejeições demasiado simplificadas e grosseiras (apesar de que, justiça seja feita, é mais fácil encontrar evidência da opressividade do cristianismo do que da imaturidade desordeira do anarquismo).

Qualquer um que se entenda "cristão" ou "anarquista" por um bom tempo pode confirmar que nenhuma das duas "tradições" é fácil de definir. Nenhuma das duas é monolítica. E ambas são profundamente mal-compreendidas. Portanto, falar de como elas se relacionam é uma tarefa complicada. Por isso todo ano, na conferência anual da Jesus Radicals, temos uma palestra de "compêndio/cartilha" sobre cristianismo e anarquismo. Nos últimos dois anos, participei como preletor nessa palestra. O que se segue é baseado nesses compêndios. Sarah Lynne Taylor ajudou a apresentar a palestra na conferência de 2011, então as suas impressões digitais também podem ser encontradas nesse artigo.

Tal compêndio não existe online. Encontrei alguns que tentaram uma explicação sólida e sintética, mas nenhuma pareceu suficiente. Meu objetivo aqui é escrever uma pequena série de ensaios que se poderia repassar a amigos (confusos).

Definindo "anarquismo"

Definir anarquismo é uma problemática instrínseca, mas vou arriscar uma tentativa. "An-arco" significa contrário à autoridade ou sem governante. Portanto "anarquismo" é o nome dado ao princípio ou teoria de vida e prática na qual a sociedade é concebida sem um governo. Mais especificamente, tem sido vista como uma crítica ao "estado", ao invés de promover uma sociedade sem estado. Essa é a definição livro-texto básica. Muitos anarquistas vão além, tentando identificar as coisas que oprimem ou conferem ao estado seu poder, e portanto, procuram rejeitar ou minimizar outras formas de autoridade estática em relações humanas. Alguns estendem o conceito além das relações humanas. Além disso, nos últimos anos, o anarquismo organizado tem focado cada vez mais em preocupações de ordem econômica... considerando (tal qual pessoas como Hardt e Negri apontaram) que existem coisas mais poderosas do que o estado. Hardt e Negri (e outros) mostraram que o "império" é supra-nacional, sendo dirigido por bancos internacionais e super-corporações. Seria aceitável dizer que anti-capitalismo ou anti-globalização são tão importantes (ou talvez até mais importantes) do que ser contra o estado.

Ao mesmo tempo, existem outros que se dizem anarquistas e defendem o livre mercado. A maioria dos anarquistas (com razão) rejeitam tais "anarco-capitalistas" como não sendo de forma alguma anarquistas. Afinal, o pensamento anarquista emergiu em grande parte do mesmo solo que o Marxismo. Isso apenas nos dá uma dica da complexidade de se definir anarquismo... o que leva a uma série de termos hifenizados como anarca-feminismo, anarco-sindicalismo, anarco-individualismo, pós-anarquismo, anarco-primitivismo, etc. Abordagens diferentes representam compreensões diferentes seja das raízes da opressão, das táticas para resistir a opressão, ou de ambas. A maioria dessas críticas não é mutualmente exclusiva.

O anarquismo, tal como idéia definida, é um conceito novo. É complicado olhar na história e identificar coisas como sendo "anarquistas". Entretanto, como escreve o antropologista David Graeber:

As "figuras fundadoras" do século XIX (Bakunin, Kropotkin e Proudhon) não pensaram em si mesmas como tendo inventado algo especialmente novo. Os princípios básicos do anarquismo - auto-organização, associação voluntária, auxílio mútuo - se referiam a formas de comportamento humano que eles acreditaram existir por tanto tempo quanto a própria humanidade. O mesmo vale para a rejeição do estado e de todas as formas de violência estrutural, desigualdade ou dominação... Até mesmo a pressuposição de que todas essas formas estão de alguma maneira relacionadas e que reforçam umas às outras. Nenhuma delas foi apresentada como uma nova doutrina surpreendente. E de fato não eram: pode-se encontrar registros de pessoas usando argumentos similares por toda a história, apesar de haver todos os motivos para acreditar que na maioria dos tempos e lugares, essas opiniões eram as menos prováveis de terem sido escritas. Estamos falando menos de um corpo de teoria, portanto, do que uma atitude, ou talvez pode-se dizer até mesmo uma fé: a rejeição de alguns tipos de relações sociais, a confiança de que outras determinadas relações seriam bem melhores para se construir uma sociedade vivenciável, a crença de que tal sociedade poderia realmente existir.
(Graeber - Fragmentos de uma antropologia anarquista.)

Acredito ser esse um esclarecimento útil. Por essa razão você poderá ouvir de mim (e de outros) às vezes a referência ao "impulso anárquico" tanto quanto ao "anarquismo". Penso que tal termo permite reconher uma postura familiar sem anacronicamente cooptar movimentos passados (pelo menos não em demasiado). O anarquismo tende a ser orientado à praxis, ao invés da teoria. Comumente se aponta que enquanto o Marxismo é primariamente compreendido como um sistema de pensamento, o anarquismo se encontra em casa mais nas práticas pé-no-chão. No seu ponto alto ele não é orientado à teoria, com todos seus patos-de-pensamento-abstrato alinhados numa fila, mas num estado em evolução no qual o pensamento flui à partir da experimentação e prática.

Faria sentido que aqueles que seguem Jesus Cristo (o qual presumidamente quer encarnar o Caminho do Amor) fossem atraídos a um conjunto de práticas e teorias que buscam remover relações sociais opressivas e, no lugar, procuram uma nova forma de se relacionar.

Definindo cristianismo

Cristianismo é ainda mais difícil de definir. Tem mais seguidores, uma história mais longa e milhares de seitas auto-proclamadas. É importante destacar que o cristianismo nunca foi monolítico. A ortodoxia foi uma tentativa de "definir o centro" - o qual, quer você concorde com os credos ou não, é um forte movimento que eu não abraço. Não vou definir o cristianismo como uma tradição específica ou um conjunto de princípios ortodoxos. Ao contrário, qualquer grupo que alega que Jesus é sua inspiração primária será, para o propósito dessa série, considerado "cristão".

Apesar do cristianismo normalmente ser dividido em três partes pelos dicionários (Católica, Ortodoxa - que não deve ser confundida como relativa a ortodoxia, e Protestante), ele não pode ser facilmente explicado. Alguns grupos, como os anabatistas e os Quakers, frequentemente não se consideram de maneira alguma protestantes. Alguns grupos são chamados "seitas" (como os mórmons). Alguns grupos se dizem transcender essas distinções (como os evangelicais). Alguns pressupõem não serem parte de qualquer tradição denominacional (igrejas não-denominacionais). O pentecostalismo pode ter suas raízes no Protestantismo mas é tão singular e ubíquo que precisa ser compreendido em seus próprios termos. Claro, cada um dos grupos que mencionei ainda tem seus sub-grupos. E ainda mais claro, sempre existirá alguém que simplesmente vai dizer "Eu não acredito em rótulos - sou simplesmente cristão" - o que é essencialmente uma elegante evasão. Outra evasão ainda maior vem daqueles espiritualmente e socialmente formados numa igreja cristã e que ainda guardam alguns de seus valores e crenças, mas preferem nem ser chamados cristãos. Tudo isso para dizer que a construção social do cristianismo é uma completa bagunça! Porém, vou dizer: todos os grupos que demonstram o impulso anárquico enfatizam a importância da ética.

Definindo "anarquismo cristão" (ou cristianismo anárquico... ou cristianarquia... ou cristarquia... ou anarcristão... ou seja o que for)

Ok. Dado o nível de complexidade que já estamos lidando, como pode alguém falar do diálogo entre duas confusas constelações? Fique atento. No próximo artigo, vou traçar brevemente aqueles movimentos históricos cristãos que expressaram um "impulso anárquico". Então, ou oferecer uma visão geral de uma linha de interpretação das Escrituras em direção à algo similar ao anarquismo. Finalmente, vou explorar algumas das tensões encontradas ao tentar relacionar um "cristianismo anárquico" com o(s) anarquismo(s) moderno(s). No final, vou resumir com uma exploração sobre por quê, sob a minha perspectiva, é melhor abraçar um cristianismo que afirma a trajetória anárquica do Caminho de Jesus em seus próprios termos do que simplesmente esmagar juntos o cristianismo e o anarquismo formando uma espécie de mistura tensa. Frequentemente encontro quem se auto descreve anarquista cristão e que não tem uma forma real de colocar essas duas coisas juntas de maneira a fazer sentido para eles próprios. Simplesmente, seguram cada tradição em uma das mãos, ignorando o conflito que sentem até que, eventualmente, desistem de uma delas.

Muito boa essa introdução!

Muito boa essa introdução! Estou seguindo. Abraços.

Gostei da definição do

Gostei da definição do anarquismo. Confesso que em um primeiro momento achei que iria deixar a desejar mais foi interessante. :P

Quase não li o resto, mas dei mais uma chance para novas ideias e até fez sentido apesar de eu preferir continuar com meu ateísmo.

Abs.

Bacana!!!

Bacana!!!

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