Um Conto (mais ou menos ali pelo fim do mundo)

Fitou o largo horizonte avermelhado, de sangue, ruína e fumaça. Seus olhos lacrimejavam, não de tristeza, mas do ar viciado das explosões que castigaram a atmosfera na última semana. "Foram dias de muita tensão", pensava, ao se recordar da tumultuada semana. Conflitos constantes, muitas baixas. Seus olhos agora corriam lentamente pelo terreno, buscando os próprios pés. Amigos partiram, levados pela crueldade da guerra. A visão embaça, num misto de emoção e poeira. Pisca demoradamente, fazendo rolar uma pequena lágrima, à correr pelo rosto sujo de fuligem. Se perdeu pelas dobras da roupa rasgada, esvoaçante no vento de fim de tarde. Pensou em tempos antigos, quando assistia à cena sentado na varanda, com apenas os campos, ou o mar (tinha umas férias no litoral, de vez em quando). Era a paz total. Sentia aquela mistura gostosa de tranquilidade e preguiça. Logo estaria dormindo no macio colchão. Seus olhos se perderam de novo no horizonte, ao divagar pelas memórias. "Será que um dia isso voltará?", pensou sem muita esperança. Passaram algumas unidades mecânicas de batalha, reconhecendo o terreno, rangindo e estalando, andando desengonçadas, baqueando entre os pedregulhos. Faziam-lhe lembrar de dinossauros, mas eram ainda mais desajeitadas. "Ridículas", foi o que lhe veio à mente, acompanhado por aquele sorriso de canto de boca.
"Só você mesmo para sorrir nesses momentos", a voz dela flutuou provocativamente doce, alcançando-lhe os ouvidos inesperadamente. Tinha se distraído tanto que nem notara sua aproximação. Vestia suas roupas de batalha, igualmente surradas pela severidade da situação. Mas lhe caíam muito bem, como sempre. Seus cabelos sujos cobriam parcialmente a face, naqueles múltiplos comprimentos, que lhe coloriam a cabeça. As mãos levadas à cintura, na pose preferida de uma capitã dos mares antigos, quando se tinha papagaios, tesouros, terras não exploradas e mar... muito mar. Às vezes tinha a leve impressão de ver o mar através dos seus olhos. Um reflexo que ficou preso, enterrado como tesouro. Um pouco acima, as sobrancelhas assumindo o porte assimétrico do seu tom de gozação, maroto, mas ao mesmo tempo trazendo a beleza cativante da mulher. O sorriso, sim, discreto e contagiante, sem muito extravagância, comedido, como de uma antiga boneca que enclausura eterna serenidade em sua louça fria. Ela lhe observava, com aquele olhar de mil palavras. Poderia passar horas nesse diálogo silencioso. Mas o silêncio tinha sido bastante àquela hora. "Estava apenas revivendo lembranças, procurando nelas pra ver se restaram esperanças...". Ficou feliz de ouvir a poesia saindo de seus lábios de novo. Ainda mais por ter arrancado outro sorriso dela. Mas trazia ainda mais lembranças. Ela se aproximou. Tocou-lhe as mãos. Agradável calor humano, depois de horas incessantes de luvas grossas e pesadas, e todo aquele maquinário sem vida. Agora notava, com a proximidade, um tom avermelhado nas bochechas dela. Não era normal... "Teria ela usado maquiagem, mesmo nesse apocalíptico caos? Ou seriam queimaduras do Sol ardido? Ou ainda um leve sapecar de todo o fogo da semana?". Não importa, estava bonita assim. Vê-la todos os dias agora lhe lembrava outras coisas. Lembrava por que estava ali. Não podia separar os motivos. Não poderia estar em outro lugar, a não ser talvez por uma cova em algum cemitério pelas cidades-fantasma. Sua devoção era sua batalha, e era ela na sua frente também. E era seu coração, sua poesia, seu olhar. Era também o horizonte, a fumaça, o mar e o fogo. Tudo caminhava conectado, sua lâmina dupla de centrina, o aço que cortava com os golpes rigorosamente ensinados na academia, a pequena mão que segurava agora, as sobrancelhas, os fios de cabelo escorridos pela pele macia... E bem agora, ali mesmo, viu de novo o mar nos olhos dela. Sorriu. Ela também. O diálogo havia continuado. Ela segurou forte e o abraçou, como costumava fazer. Aquele abraço de fazer o coração do outro atravessar o seu. E era mais um momento que poderia se estender pela eternidade. Era impossível conter as lágrimas agora. Elas molhavam os ombros, cantando sua melodia de forte emoção, alegria, esperança e saudade. Saudade de mil abraços, saudade do que vivia, saudade do fim. Viraram os olhos ao horizonte, agora como se fossem apenas um. Não mais saudosos e sem esperança, mas capazes de ver, lá longe, mesmo com a despedida do Sol, as pinceladas de um céu azul profundo, que jaz sereno, esperando a guerra acabar. Quando a guerra acabar... Ah sim, ela vai acabar. Estaremos então no mar, no céu, na varanda, nos campos. Caminharemos com as estrelas, tomaremos chá com a Lua. Fitaremos o Sol, sem nem nos ofuscarmos. Viveremos a humanidade completa, que um dia perdemos. Segurou a lâmina firme, vislumbrando um vale de guerra separando-os de um monte de paz ao Sol. Seus olhos (dos dois) agora cheios de esperança e glória, fitam destemidos o mar de batalha adiante. Toca a sirene à distância, sinalizando o recolhimento das tropas para a noite, que já reina, com poucas estrelas, mas com muita fé. Ainda um sorriso estampa seus rostos, lado a lado, cumprimentando a Lua, que os acaricia de luz suave, lembrando que o Sol ainda irá nascer de novo. "E não haverá mais morte, nem tristeza, nem choro, nem dor, pois a antiga ordem já passou. E toda lágrima será enxugada".

sem palavras...isso me

sem palavras...isso me lembrou algo que eu escrevi no começo do ano, mas não sei se vou mostrar tão cedo... como você pode escrever algo assim tão lindo...Sabe o que é chegar em casa e ler uma coisa dessas? dá vontade de ficar a tarde toda fazendo coisas bonitas e pensando e escrevendo, é realmente tentador... mas eu resolvi fazer jus à história e ir-me a guerra, como tinha me comprometido a fazer, esperando que você compreenda que eu não estou podendo participar dessa competição de quem escreve coisas mais lindas... rsrs... injusto! mas o que é justo, não é mesmo...?vc me surpreende, Deus do céu!bem que vc disse...almirante ;)

oie.... que texto

oie.... que texto maravilhoso!!! pude sentir toda a emoção alí descrita.... meus olhos marejaram já no início, e no final, não pude conter minhas lágrimas!!!! Isso não quer dizer que sou somente uma romântica (embora seja hahaha), mas tento enxergar todo sentimento demonstrado... principalmente o fato de haver muitos motivos para tristeza, e mesmo assim encontrar-se sorrisos em meio à guerra e em todas as lembranças trazidas à memória!!!! Mas principalmente a fé alí demonstrada, que dá alento a qualquer coração, a qualquer pessoa que realmente creia em Deus e que saibam, no âmago de suas almas, que Jesus tem sempre O melhor para cada um! Parabéns querido... you've got the gift!!!!! Deus certamente lhe abençoa toda vez que escreve.... senão, como poderias escrever tão lindamente? até mais!! bjosss

Parabéns. Não sabia q vc

Parabéns. Não sabia q vc tinha essa tendencia p o lado da literatura. Vc estreve mt bem. estou impressionado. Passarei a visitar teu blog mais vezes. Gostei mt.Tolstenko

rapaz... é incrível como

rapaz... é incrível como simplesmente não temos idéia de como somos frágeis o suficiente para nos desligarmos de toda tragédia que nos cerca.. não que seja mal. Por vezes é necessário.Mas aqui neste texto é um caso peculiar... onde em muitos momentos somos obrigados a ouvir as imposições da mais dura Razão humana, que em muito já nos transformou em monstros e máquinas... Que bom saber que há um amor nessa história... Divino e cheio de esperança nas coisas simples..Abraço

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