A teoria e a prática

É muito comum ouvir, nas mais diversas áreas da vida, que a prática é muito mais importante que a teoria. Frases como "Na teoria, funciona, mas na prática não", "Chega de teoria", "Não adianta nada saber a teoria" exaltam um sentimento muito comum na pós-modernidade, que é o cansaço e a desistência com relação à profundos ensaios teóricos. Já está interiorizado, e fazemos sem pensar (aliás, o próprio "fazer sem pensar" é parte disso), mas nunca é tarde para refletir sobre isso.

C. S. Lewis conta em seu livro Cristianismo Puro e Simples uma experiência na qual um ex-combatente da 2ª Guerra Mundial o critica quanto à teologia que ele produz. "Não preciso disso!" afirma categoricamente o soldado, contando uma experiência sobrenatural que passou quando estava na campanha no Norte da África. Sua fé se baseava nisso, e lhe bastava. Lewis então compara essa dicotomia com a dicotomia de um Mapa dos Oceanos e a experiência prática de estar no Mar. Segundo essa analogia, o Mapa jamais substituiria nem sequer o ato de molhar os pés nas pequenas ondas. Entretanto, sem o Mapa não era possível prosseguir mar adentro e explorar a imensidão do Oceano. O "explorador" estaria restrito à algumas dezenas de metros da praia.

Acho importante questionar o que se têm dito por aí à esse respeito. Devemos tomar cuidado e não cuspir no prato que comemos. Muitos artistas de vários tipos criticam a virtuose e os exercícios que se aplicam à estudantes, defendendo uma arte "livre" de regras e padrões, mas esquecem-se de que têm sua aptidão graças à esses exercícios. Creio que na vida cristã estamos passíveis da mesma atitude, o que pode até ser indiferente para alguns, mas não para todos. Depois de compreender conceitos importantes e adquirir certo conhecimento da Bíblia, passamos a entender que a prática da vida Cristã é o mais importante, que amar nosso vizinho é muito mais proveitoso do que ler e estudar 30 capítulos da Bíblia somente. Entendemos melhor o coração, e passamos a nos dedicar à isso. Entretanto, nesse processo frequentemente esquecemos o que nos trouxe à isso tudo, e somos tentados à rejeitar estudos, leituras e longas e profundas teorias.

Enxergo duas consequencias negativas: a primeira é como jogar os aparelhos de navegação fora, estando em alto-mar. Por pensar que já chegamos longe e não precisamos mais destes, nos tornamos arrogantes e orgulhosos, e nos cegamos para muitas verdades ainda a serem descobertas. Se chegamos à isso, o melhor que pode acontecer é continuar navegando em círculos, sem progredir. A segunda consequencia é quando acabamos por enganar os outros, dizendo que o que estamos enfim aplicando na prática é o que importa e incentivamos outros à "pular" o aprendizado teórico. Seria o mesmo que jogar alguém que não sabe nadar numa piscina funda, dizendo: "Não se preocupe, só nade!" .

Faço um esforço para não rejeitar a teoria. Ela é importante. A Lei não foi rejeitada ou anulada pela Graça, como alguns pensam, e Paulo reafirma isso em sua carta aos cristãos de Roma. Ela se fez necessária, ainda que insuficiente. Da mesma forma, continuo à buscar a teoria e o estudo, e procuro equilibrá-lo com uma prática adequada, sempre que posso.

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