A Ponte

"Eco, eco, eco".

Brincava o menino próximo ao precipício. Era uma fenda que descobrira à pouco. Nem podia ver direito o fundo dela. Era bem grande e não podia contorná-la também. Logo se cansou do eco, e passou a observar com curiosidade o outro lado. Era parecido com o seu lado, com diferenças em alguns detalhes. Às vezes os detalhes eram tão marcantes que parecia outro mundo. De repente, notou a existência de algo que se movia, gracioso. Olhou melhor, e viu que era uma menina. Acenou para ela, e ela logo retribuiu. Já estava observando-o anteriormente.

"Olá!"

"Olá..."

Assim começou o diálogo, aos gritos, por estarem distantes. Mas tanto gritaram que quase ficaram sem voz. Cada qual contava um pouco de como era no seu lado, contavam histórias, perguntavam cheios de curiosidade sobre o outro, davam risadas. Logo começaram a traçar um plano para poder vistar um ao outro. Estava decidido, iriam construir uma ponte. Não ia ser fácil, porque pontes dessas entre dois lados de despenhadeiros são muito complicadas de se construir. Os dois teriam que trabalhar juntos, cada um do seu lado, se encontrando no meio.

O menino pensou que essa era uma grande oportunidade, e sentia aquela sensação de grande realização. Afinal, era mesmo algo muito bom. Mas, meninos não entendem direito essas coisas de grandes pontes e despenhadeiros, e não têm noção do perigo. Também não são muito observadores quando estão empolgados.

Os dois construíram a ponte, e estavam muito felizes. Agora faziam incursões nos dois lados, mostrando o que havia de interessante (e de quebra algumas coisas desagradáveis também). Estavam contentes, e diziam um ao outro que a ponte fora mesmo uma ótima idéia que deu certo.

Mas o menino estava na ponte, um certo dia, e a menina estava junto. Não entendeu, mas a menina perdeu o interesse na ponte, e passou a não querê-la mais. De sopetão, assim como quem muda de idéia de uma hora para outra, resolveu que a ponte não deveria mais existir (as pontes entre despenhadeiros são assim, a gente demora pra construir e pode fazê-las desaparecer num piscar de olhos). Assim a ponte desapareceu. Mas o menino ainda estava nela quando aconteceu, e, desavisado, caiu penhasco abaixo, seus olhos ainda fitando as costas da menina.

A queda foi muito feia, mas os meninos sobrevivem à quedas de despenhadeiros como esses. Ele se feriu bastante, e rastejando conseguiu lentamente subir o penhasco. Levou mesmo muito tempo. Quando chegou lá em cima, havia uma grande névoa do outro lado do despenhadeiro. O menino não entendeu, mas não conseguia mais ver nada do que parecia existir antes. Ainda lhe doía bastante a queda, e não a esqueceria. Ainda tinha curiosidade de conhecer o outro lado, e saber o que acontecera à menina, pois tudo que tinham feito tinha sido de grande valor. Mas a dor e o trauma lhe causavam medo de ter qualquer idéia louca novamente.

E o menino passou ter mais cuidado com despenhadeiros, pontes e, sobretudo, meninas, porque meninos não entendem muito bem nada dessas coisas. Ainda sim, o menino guardou bem na memória, porque isso ele fazia bem.

Uma história tão bonita que

Uma história tão bonita que virou algo tão tristonho...É uma pena quando vemos nossas ligações se romperem. Quando pontes caem, destroem-se contatos. Podem definhar a existência.

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