Os muros e nós.

Postagem de número 100, uma marca histórica!

Quando eu tinha 2 anos, derrubaram o muro de Berlim. Todo mundo sabe o quanto isso foi (e ainda é) significativo para a história da humanidade. Não foi a vitória do neo-liberalismo ou a queda de um regime autoritário. Pode até ter sido tudo isso, segundo economistas, cientistas políticos, sociólogos, etc... Mas foi outra coisa. Foi a queda de um muro. Ele separava pessoas. Famílias, amigos, inimigos, rivais, colegas de trabalho, de bar... Essa queda foi um símbolo, um estandarte. "É hora de a humanidade quebrar seus muros!" E era (ou é) verdade. Depois desse evento, ou antes até (não sou bom em história), vive-se até então um processo de quebrar muros.

Eu cresci nesse contexto de muros em decadência. Sempre achei bonito, humanizador, poético. E ainda acho. Mas quebrar os muro não é só flores. Aliás, quem começou a quebrar muros há 20 anos, depois de observar as consequências, quis voltar atrás. Mas é tarde. Desconstruir é muito mais fácil do que reconstruir. Ou você acha que erguer um muro à essa altura vai impedir as centenas de mexicanos de entrar nos EUA? Aliás, logo, eles serão maioria no país. Ninguém pode afirmar com clareza se derrubar um muro é bom ou não. Por outro lado, se pensar demais, nunca derruba.

Como protestante crítico, não deixo de me lembrar que existe uma semelhança entre a Reforma Protestante e a queda do muro de Berlim. O muro estava lá, sólido, sufocante, uma barreira mais do que física. A pressão foi aumentando tanto que não tinha mais jeito, tinha que derrubá-lo. Lutero queria um reforma, queria construir, mas não foi possível. O sacerdócio tinha que vir ao fiel, e disso fez-se a ruptura. Mas a semelhança vai além: a queda do muro de Berlim não acabou, e tampouco cessou a compulsória divisão do cristianismo. Pois é, estamos em época de se quebrar muros, de espalhar.

E então, eu me pergunto se desconstruir dessa forma é bom, no saldo final. Porque a gente começa derrubando o muro, mas quem garante que não cai a casa? Ou não estamos num processo de perda de identidade? Será que derrubar muros não tem a ver com nossa desintegração cultural e intelectual? Não seriam partes da mesma fragmentação daquilo que propriamente nos definia? Eu só sei que, com tantos muros quebrados, não me resta onde ficar. Seria esse o motivo de tanta insegurança? Veja, eu escrevo um parágrafo inteiro de perguntas, porque nem consigo afirmar o que eu penso, se é que o que penso é legítimo. Talvez os muros fossem bons. Não todos, mas alguns. Sinto que não poderei saber ao certo. Mas é difícil construir enquanto todos desconstróem.

Nessa busca de uma honesta verdade, resta saber então uma coisa: Por quê existem (ou existiam) muros? A geração que quebrou o muro de Berlim talvez tivesse uma noção mais clara. "Nossos pais os construíram." Claro, é mais fácil enxergar as coisas quando tudo o que se vê é um muro. O objetivo de vida era destruir o(s) muro(s). Como eram felizes eles. Tinham muros para derrubar. Mas e nós, que já nascemos num mundo em desmurificação? Continuamos até não restar "pedra sobre pedra" ou fazemos o ciclo histórico e reconstruímos tudo, do nosso jeito, que é mais inteligente?

A verdade é que apesar de não negar que me parece mais humano derrubar os muros, uma parte de mim se identifica com seus construtores. O homem deles é o mesmo em mim. Os muros que eles fizeram eram para conter a si mesmos, uns dos outros, para se sentirem seguros, mas nunca foi suficiente. Por outro lado, derrubar os muros não resolve nossa angústia. No fundo, só nos faz não melhores, nem piores, mas apenas mais conscientes. Conscientes de que os muros, na verdade, estão dentro da gente. E não posso viver sem a esperança de que um dia eles não existam mais.

Wow!*le-se "wow" como

Wow!
*le-se "wow" como representando o meu estado de sem palavras... afinal estou processando ainda...