Os ex-muros da Ciudad

As cidades são solitárias. Tirando talvez aquelas que estão conurbadas, isso se explica por uma questão física. Mas até estas, mesmo estando unidas com outras, vivem num "frenesi introspectivo, tão preocupadas com seus problemas, que se tornam solitárias. E normalmente suas irmãs estão dormindo o tempo todo.

A Ciudad não tem mais muros, eles caíram da noite pro dia, deixaram de existir, nunca existiram. Depois de breve período até a memória deles se esvaiu. Podemos ver o horizonte agora? Podemos enxergar longe, tirar fotografias do mundo inteiro? Sim! Mas lá fora só tem um deserto, uma terra árida. Onde está o mundo lá fora? É esse mesmo.

O poeta, memória viva das coisas importantes que ficam dentro da gente, se lembra bem dessa sensação, dos muros inexistentes, do olhar se perdendo no horizonte, trazendo solidão ao coração. Tomou seu instrumento, agora uma pequena flauta, doce e aguda, e passou a entoar uma suave melodia. Se você prestar atenção, pode ouvir as palavras que à acompanham.

"Amigos vão e voltam,
são como o vento, sopram e param,
momentos são de alegria
mas depois mal sobrevivem à memória
Assim que é, somos pequenos solitários
e se quisermos não ter muros
sentiremos a areia dos ventos
sempre a nos machucar

Já lhe disse, amor
o caminho deste amor
passa por muita dor

Se quiser continuar
viva hoje suas alegrias
compartilhe suas tristezas
e seja quem você precisa ser
Dê tudo ao seu senhor
e tenha esperança"

O menino escutou cada palavra, porque meninos têm ouvidos ainda castos de desconfiança e presunção. Era raro o poeta cantar assim,imperativamente. Ainda mais estranho era que a melodia era alegre, apesar de carregar uma tristeza. Concluiu que era daquelas tristezas belas, de histórias nas quais a gente chora muito e sofre, mas sempre termina sorrindo, certos de que dentro de nós existe algo maior, que desafia esse mundo cruel e sombrio.

Olhou para fora mais uma vez. Embora o árido e selvagem ainda parecesse hostil, não amedrontava mais. Haveria de viver uma vida lá, desbravando, se ferindo, despedindo-se e reencontrando (mais o primeiro que o segundo). Viver cada dia, vencer o seu mal e transformar frustração em esperança, era nisso que consistia sua viagem. Mas não poderia fazê-lo sozinho, sabia disso. Se perderia, e seu coração endureceria, se tornando incapaz de amar. Mas seu bom amigo estaria sempre junto, e o levaria pelo caminho certo.

Sorriu. Que mais podia fazer?