Linhas anarquistas nas Escrituras: um compêndio sobre anarquismo cristão, parte 3 (de 5)

Artigo de autoria de Mark Van Steenwyk[Inglês]

Para a maioria dos cristãos, existe um grande motivo para rejeitar o anarquismo: ele não é bíblico. Ou é? Uma leitura superficial da Bíblia revela um Deus que se auto-define como uma espécie de Rei-guerreiro, sanciona genocído promovido pelo estado e promove uma dinastia de reis santos, como o Rei Davi. Quando Jesus chega, vem para começar um Reino de Deus que, aparentemente, se contenta em co-existir com um reinado terreno. Na verdade, o próprio Jesus diz: "dai a César o que é de César", e Paulo exorta os cristãos a serem bons súditos às autoridades governantes. Portanto, Anarquismo cristão é uma contradição em termos, certo?

Além disso, o tipo de idéias que muitos cristãos anarquistas sustentam são evidentimente não-bíblicas, como a não-violência (afinal, muitos heróis bíblicos eram exímios matadores), comunismo (afinal, certos patriarcas eram "abençoados" como uma vasta propriedade - que não era compartilhada igualmente com todos), igualitarismo (afinal, Paulo tende a afirmar a liderança masculina, Jesus elogia um Centurião em uma posição de autoridade, etc). A Bíblia é inimiga do anarquismo. Certo?

Eu não acho. Ao mesmo tempo que está além do objetivo desse único artigo lidar com todos os desafios que leitores tradicionais das Escrituras lançam mão contra o anarquismo, eu gostaria de pelo menos oferecer uma espécie de panorama que pode servir como uma lente simples para ver as Escrituras de uma forma diferente. Vou tentar colocar "links" para outros recursos para aqueles que queiram de cavar mais fundo. De forma a realmente dar conta do grande número de questões que emergem de uma leitura anárquica das Escrituras, seria melhor dispor de uma série de comentários. O que eu ofereço é um panorama muito simples, não uma pesquisa exaustiva. Se algum estudioso bíblico por aí quiser publicar uma série de comentários bíblicos anarquistas, e não ficaria apenas feliz em comprar o conjunto, como teria ótimas idéias sobre quem deve contribuir.

Escrituras Hebraicas

Comecemos pelo começo. Pode-se facilmente ler Gênesis como um texto anti-civilizatório. Afinal, ele conta a históra de humanos vivendo em harmonia com a natureza. O primeiro ato de violência é cometido pelo agricultor (Caim) ao invés do pastor nômade (Abel). Como sabemos, a agricultura surge com o advento da civilização. Esse assassino é a pessoa que estabelece a primeira cidade. Mais adiante, a medida que a humanidade "progride", acontece todo tipo de coisa, tal como quando a população humana aumenta muito, os "filhos de elohim" fazem sexo com mulheres, as pessoas se tornam cada vez mais perversas, e Deus manda uma enchente para recomeçar a Criação. Mais a frente, povos se unem para construir uma torre enorme para alcançar os céus; Deus espalha as pessoas. Na sua maior parte, Gênesis é notoriamente negativo com respeito ao projeto civilizatório e suas subsequentes tendências imperialistas.

Tal como Ched Myers sugere, "na 'história primitiva' de Gn 1-11 os sábios de Israel - revendo fontes mais antigas e provavelmente escrevendo após o fracasso da monarquia - também procuram explicar [a ruptura com a vida primitiva]. O Éden pode ser interpretado como uma memória mítica de antigos modos de vida simbióticos: humanos, criaturas e Deus habitam intimamente e ricamente juntos (Gn 2)."[1] Quando o paraíso se perde, os humanos são relegados ao árduo trabalho agrícola, a primeira cidade é atribuída a assassinato e Deus tem que afogar a terra para empurrar para trás os males da civilização.

"A Queda" em Gn 1-11, portanto, não é somente um momento cósmico de fracasso moral mas também uma 'história' progressiva do declínio à civilização - exatamente o contrário do mito do Progresso... A história bíblica primitiva deveria ser portanto considerada não apenas uma "memória mítica", mas também talvez a primeira literatura de resistência ao grande projeto da civilização - advertindo precisamente contra suas patologias sociais e consequências ecocidas."[2]

O que se segue no restante de Gênesis é a história dos primeiros patriarcas, chamados por YHWH* para se tornarem o povo que seguiria YHWH* à Terra Prometida. Ao longo do livro, seguem-se problemas quando os judeus interagem favoravelmente a poderes imperiais ou tentam se estabelecer muito cedo. Também devemos perceber que, apesar dos patriarcas terem muitas posses, é um exagero forçado inserir neles noções modernas de direito a propriedade. Povos nômades pré-agricultura eram tribais, e embora certamente não fossem igualitários (pelo menos nesse caso), sua compreensão de propriedade era certamente mais comunal. A riqueza da tribo ou clã ou família era para benefício de todos. E, ao que parece, a visão de Deus para o Jubileu levaria isto ainda mais além.

O Êxodo nos conta a história de um povo escravizado pelo império egípcio e como YHWH* os liberta. Você conhece a história - YHWH* se revela a Moisés no arbusto em chamas e o chama para liderar os israelitas da escravidão à Terra Prometida. Claro, uma vez libertas, as pessoas resmungam e reclamam - desejando o retorno ao Egito ao invés da longa jornada pelo deserto. Como resultado dessa murmuração, YHWH* os mantém no deserto por quarenta anos. Moisés passa o manto da liderança para Josué - um tipo de herói militar que entra em guerra com os povos nativos de Canaã. O povo se estabelece com sucesso e então são atacados pelos povos vizinhos, levando YHWH* a levantar "juízes" para liderar o povo no combate aos adversários de Israel.

YHWH* define uma realidade política e econômica brilhante, seguindo as práticas econômicas do Jubileu (para mais informações veja aqui[Inglês] e aqui [Inglês]) e, ao invés de ter um governo centralizado, existe uma liderança temporária que surge conforme a necessidade. Ao invés de um rei, Deus habita entre eles - reinado direto, não um reinado através de reis ou sacerdotes. Por exemplo, um dos líderes que emerge, Gideão, diz ao povo: "Eu não governarei sobre vós, nem meu filho governará sobre vós. O SENHOR governará sobre vós."[3]. Infelizmente, os filhos de Gideão tentam estabelecer uma espécie de dinastia.

O povo continua se queixando e pedindo um rei, então eventualmente YHWH* cede. Saul - que se encaixa no ideal de rei do povo - é decepcionante. Ele morre numa batalha e Davi (depois de algumas histórias famosas) se torna rei. O reino se divide durante o período do neto de Davi. À medida que as coisas prosseguem, alguns reis agradam a YHWH*, mas outros são péssimos, levando a uma eventual falência e cativeiro de ambos os reinos, do norte e do sul.

Essa história - de Êxodo à monarquia - parece bastante simples. Há, porém, muito mais do que lembramos da escola dominical. Tal como escreve Wes Howard-Brook: "Da forma em que so coloca em sua ordem canônica, a história carrega uma mensagem relativamente (e enganosamente) simples: a mudança de uma confederação de doze tribos sob reinado de YHWH* para uma monarquia humana 'tal como as nações' (1 Sm 8:5) foi uma traição desastrosa da condição exclusiva de Israel de 'povo escolhido' de YHWH*... Israel 'converteu-se' da Religião da Criação para a Religição do Império, com resultados previsíveis."[4]

É importante destacar um pouco do que torna esta uma mensagem "enganosamente" simples. O livro de Wes (que não é demais recomendar) aprofunda-se na complexidade e tolice de se acreditar que o reinado de Davi com a adoração centralizada em um Templo em Sião deveria ser considerado uma era de ouro ou ideal. De acordo com Howard-Brook, existe uma tensão (ou contradição direta) entre a pró-monárquica "'Teologia de Sião' que colocava YHWH* no templo em Jerusalém" na qual Salomão "poderia ser compreendido como verdadeiramente agraciado por YHWH* com 'sabedoria'" e a profética "teologia do Sinai" onde "A 'experiência' de Salomão poderia ser escrita como pensamento positivo ou simplesmente propaganda."[5] Em outras palavras, as Escrituras Hebraicas apresentam uma espécie de disputa entre a religião do Império (onde a fiel, poderosa, segura, rica e vasta nação é centralizada em Jerusalém, onde estão o templo de YHWH* e o rei) e religião da Criação (onde pessoas fiéis vivem no Jubileu, encontram YHWH* na criação e entre o povo, e vivem como família sem um governante terreno).

A medida que passamos pela leitura dos profetas, quando Deus fala, normalmente é através de um profeta que desafia o poder do rei e que permance fora das máquinas do estado. Há tanto o que dizer aqui. Mas é surpreendente o quanto os profetas associam a idolatria com a exploração dos pobres. Os profetas, ao que parece, ainda mantém a visão de jubileu de Deus em sua imaginação.

Uma de minhas seções proto-anarquistas preferidas nas Escrituras Hebraicas é Ezequiel 34. Deus julga os "pastores" ou governantes de Israel, essencialmente derrubando-os para se tornar o único pastor do povo. À propósito, esse pode ser a passagem que Jesus tinha em mente na sua história sobre "ovelhas e cabras" de Mateus 25. Aqui vai uma citação escolhida:

Eu mesmo serei o pastor do meu rebanho e os farei deitar, diz o Senhor Deus. Buscarei os perdidos, e trarei de volta os desviados, e atarei os feridos, fortalecerei os fracos, mas os gordos e fortes destruirei. Os alimentarei de justiça..."[6]**

O Novo Testamento

O Novo Testamento, em sua maior parte, é mais simples e direto para ser lido anarquisticamente. Provavelmente por várias razões. Primeiramente, os autores escreviam em contexto de ocupação. E o Rei da terra era um marionete das forças ocupantes. O povo não teria muita coisa bela a se dizer sobre governo nesse tipo de contexto.

Em segundo lugar, a reinvindicação de Jesus ao trono de Davi foi estranha. Simplesmente não seguiu a típica narrativa de rei. Isso torna difícil saber como relacionar seu "reino" com outros tipos de reinos. Acaba-se por dizer ou que oCristo ressurreto apoia seu governo em específico - ou governa através dele, que espiritualidade é separada de política (de alguma forma) ou ainda que o reinado de Jesus é ele mesmo - sem mediação por outros governantes - espiritual e político. Se você prefere a última opção, não está longe do Anarquismo Cristão.

Em terceiro, o Novo Testamento foi escrito durante um período relativamente curto. Devemos dar crédito ás Escrituras Hebraicas por cobrir tantos contextos ao longo de um período maior de tempo. Não demorou muito para escritores cristãos começarem a falar à favor de Roma, hierarquia e acúmulo de riquezas pessoas. Mas, por alguma razão, os primeiros autores cristãos não pensavam coisas boas sobre tais coisas.

Vamos pular diretamente para a história original. Lucas conta a história do nascimento de Jesus. A mãe de Jesus, enquanto ele estava em seu ventre, disse o seguinte quando estava cheia do Espírito:

[Deus] mostrou a força de seu braço;
[Deus] dispersou os orgulhosos nos pensamentos de seu coração.
[Deus] destituiu os poderosos de seus tronos,
e exaltou os humildes;
[Deus] satisfez os famintos com coisas boas,
e dispensou os ricos de mãos vazias.[7]

Jesus cresce. Ele inicia seu ministério e é tentado pelo diabo no deserto[8]. A tentação de Jesus pelo diabo revela a maneira da qual Jesus entende autoridade. Praticamente não existe similaridade entre a forma que Jesus concebe sua própria autoridade e a forma como reis o fazem. Jesus é um não-rei. Ele é tentado politicamente, economicamente e religiosamente para confirmar seu chamado messiânico. Mas ele se recusa. A tentação não é tanto a respeito de Jesus receber poder político, econômico e religioso do diabo e não de Deus. A tentação é muito mais a respeito do tipo de Reino que Jesus buscava. Jesus é o não-rei.

Mais adiante em Lucas 4, logo após a provação e batismo (há tanto que poderia ser dito sobre isso!), Jesus segue para sua cidade (Nazaré) e realiza uma proclamação política de libertação dos pobres e oprimidos, essencialmente anunciando seu messianato e a vinda do Jubileu. Infelizmente para alguns anarquistas inssurgentes, Jesus parecia disposto a incluir opressores no reino. Por isso é que pessoas de sua cidade - que certamente o conheciam bem - tentaram matá-lo. Eu costumo imaginar até se alguns deles não teriam cuidado dele quando criança. Afinal, assume-se que Maria tenha se tornado mãe viúva em algum momento. Quando foi a última vez que sua babá tentou te matar?

Apenas para dar um salto adiante, em Lucas 17:21 Jesus cita Leon Tolstói: "O Reino de Deus esta em vós" (ou entre vós). Nesse contexto, parece uma forma de sugerir que o reino de Deus não é um lugar, uma mudança de regime ou um evento claro. Ao contrário, eles está aqui. Agora.

Mais tarde, quando Jesus escuta seus amigos discutindo entre si quem seria o maior do Reino, [9], ele fala: "Os reis dos gentios dominam sobre eles, e os que exercem autoridade sobre eles chamam a si Benfeitores. Mas entre vós não deve ser assim. Ao contrário, o maior dentre vós deve ser como o mais jovem, e o que lidera como o que serve". PODERIA se tratar de "liderança-serva" organizacional tal como encorajada por John Maxwell. Mas é provável que Jesus está pedindo a seus amigos que revejam inteiramente sua forma de pensar as realidades politico-economicas. Deixo você decidir.

Antes de ir adiante de Lucas... Da próxima vez que ler esse evangelho, procure lê-lo através das lentes do Jubileu, no qual os que acumularam devem abrir mão e os que perderam recebem. O todo do evangelho de Lucas (e Atos) é tão voltado ao Jubileu que lê-lo em voz alta para banqueiros tem o mesmo efeito de luz solar em vampiros.

Em Lucas, Jesus fala ao jovem rico para vender tudo e dar o dinheiro aos pobres[10]. Ele diz a mesma coisa aos seus discípulos, por sinal.[11]

Caso você pense que somente Lucas é digno de citação para anarquistas, o evangelho de João é também suculento. Por exemplo, Jesus chama Satanás de "príncipe deste mundo" o que é provavelmente uma forma de se referir ao Império Romano.[12]

Em João 18:36, numa conversa com Pilatos, aprendemos que o reino de Jesus não é deste mundo. Na verdade, uma tradução melhor seria "não vem deste mundo". Normalmente interpreta-se dizendo que o reino de Jesus é espiritual ou celestial. Entretanto, a forma como tal linguagem dualística funcionava naquela época torna esse significado pouco provável. Ao contrário, Jesus está dizendo que seu reino é diferente. É algo completamente novo. É um dom de Deus - vem de Deus.

Prosseguindo para depois da ressureição, lemos um relato de desobediência civil em Atos 5. Quando ordenados pelas as autoridades a parar de pregar, eles respondem: "Devemos obedecer a Deus ao invés de autoridade humana". O que a maioria das pessoas escuta quando lê isso: "Devemos obedecer a Deus ao invés de autoridade humana nas raras circunstâncias em que há uma contradição clara e óbvia entre o que a lei diz e o que Deus diz, já que as leis de Deus prevalecem sobre as leis humanas". Eu não tenho tanta certeza. Se você acreditava que seu messias era um não-rei socio-político/religioso que ressucitou dos mortos (e depois derramou seu Espírito misticamente sobre você), então pode ser que você simplesmente quis dizer "devemos obeceder a Deus, e não a autoridade humana".

Isso faz sentido ao se pensar a forma de praticar comunidade na igreja primitiva. Eles eram encorajados, entre outras coisas, a resolver seus conflitos internamente ao invés de apelar à justiça humana[13]. Em Romanos 12, Paulo defende que seus amigos em Roma não deveriam "se conformar com este mundo [leia: império], mas serem transformados pela renovação de suas mentes, de forma que possam discernir a vontade de Deus". Novamente, normalmente isso é lido tal como um chamado a ser espiritual ou de mente celestial. Mas dado o contexto mais amplo, seria talvez melhor compreendido como um desavio a parar de ser tão Romano e, ao contrário, buscar o caminho do amor.

"Mas Mark, eu não vejo a palavra 'império' em lugar algum das Escrituras. Por quê vocês esquerdistas estão sempre falando de 'império'?!". Bom, é o seguinte. A igreja primitiva era furtiva. Eles não queriam parecer muito com traidores. Então temos que tentar habitar em seu contexto com nossa imaginação para ver Roma da forma que eles a viam. E nenhum texto é tão anti-imperial quanto, talvez, o Apocalipse. Leia Apocalipse 13, 14 e 17 para uma imagem não tão sutil da Roma opressora.

Mas e essa parte..?

Sim, eu sei. Ainda existem muitas questões em aberto. Os comentários abaixo seriam um bom lugar para levantá-las***. Mas, por ora, vamos encarar as duas passagens que mais frequentemente são citadas contra o anarquismo cristão.

A primeira é Romanos 13, onde nos dizem que devemos "nos submeter as autoridades governantes:"

Sujeite-se cada um às autoridades governantes; pois não há autoridade que não venha de Deus, e essas autoridades que existem foram instituídas por Deus. Portanto quem resiste à autoridade resiste ao que Deus nomeou, e os que resistem serão julgados. Pois governantes não são o terror da boa conduta, mas da má. Desejais não temer a autoridade? Então façais o que é bom, e recebereis aprovação; pois é serva de Deus para seu bem. Mas se fizerdes o que é errado, deveis temer, pois a autoridade não porta a espada em vão! É serva de Deus para executar ira sobre o malfeitor. Portanto deveis se sujeitar, não apenas pela ira mas também pela consciência. Pois pela mesma razão pagais também imposto, pois as autoridades são servas de Deus, ocupadas com isto. Pagueis a todos o quanto é devido - impostos a quem é devido impostos, dividendos a quem é devido dividendos, respeito a quem é devido respeito e honra a quem é devido honra.[14]

Eu já escrevi sobre isso antes[Inglês]. Mas existe muita coisa a que devemos nos atentar:

  1. Essa passagem ocorre imediatamente após Romanos 12, onde Paulo desafia seus leitores a abençoar seus perseguidores, viver em paz, nunca se vingar, dar comida aos seus inimigos e vencer o mal com o bem. Por uma implicação clara, as "autoridades governantes" eram inimigos perseguidores cujo mal precisava ser vencido com o bem. Considerando que Paulo está muito provavelmente se baseando diretamente nos ensinos de Jesus, é melhor interpretar o chamado a "se sujeitar" como uma aplicação do chamado de "dar a outra face". Não está falando sobre obediência ou cidadania.

  2. Jacques Ellul sugere que "A passagem portanto aconselha a não-revolução, mas ao fazê-lo, por si próprio, também ensina sobre a não-legitimidade instrínseca das instituições."[15]. Em outras palavras, o próprio fato de que Paulo precisa argumentar, à luz do amor aos inimigos, que as pessoas deixem de lado a revolta revela que as "autoridades governantes" são, de certa forma, dignas de uma revolta. Assim como Jesus que chama a dar a outra face reconhece que, em circunstâncias normais, se bateria de volta.

  3. John Howard Yoder (e outros) têm (com razão) desafiado a tradução do grego da palavra tasso para "instituído(a)". Ao invés disso, poderia-se defender que as autoridades são "contidas" por Deus. Paulo poderia estar aconselhando-os a não se revoltarem uma vez que Deus está contendo os governantes.[16]

  4. Devido às traduções, normalmente não percebemos que a linguagem de Paulo sobre as "potestades" não está simplesmente se referindo a "demônios". Sua linguagem nubla as categorias entre o político e o espiritual.

  5. É um equívoco assumir essa como uma passagem universal sobre como os cristãos em todo lugar devem se relacionar com o governo. Wes Howard-Brook afirma: "Podemos dizer, porém, seja qual fosse a mensagem que Paulo queria transmitir aos cristãos em Roma nos anos 50, não era um prinícipio geral de subserviência a autoridade imperial... Temos visto como as cartas de Paulo sempre insistem em atribuir a Jesus títulos e autoridade que seus destinatários certamente teriam ouvido como "plagiados" de fontes romanas... A explicação mais provável de Romanos 13 é de que a mensagem abordava questões específicas aos cristãos romanos sob Nero."[17]

Então, a partir da perspectiva de Paulo, os cristãos em Roma nos anos 50 não deveriam se revoltar. Ao invés disso, deveriam amar seus opressores e deixar a ira para Deus. Isso não porque o governo é bom, mas porque somos chamados para o caminho do amor. Além disso, Deus contém os governantes maus e os julgará.

Há muito pare ser dito sobre o que tal sabedoria significa para nós. No mínimo, nos encoraja a confiar em Deus, amar nossos inimigos e (acredito eu) deixa espaço para a luta não-violenta.

Também compete para passagem anti-anarquista mais referenciada Marcos 12:13-17:

Então mandaram a ele alguns fariseus e herodianos para o apanhar no que dizia. E eles vieram e disseram a ele, "Mestre, sabemos que és sincero, e não se deixa influenciar por ninguém; pois não olha as pessoas com parcialidade, mas ensina o caminho de Deus de acordo com a verdade. É correto pagar tributo ao imperador, ou não? Devemos pagar, ou não devemos?" Mas conhecendo sua hipocrisia, ele respondeu a eles, "Por quê estais a me provar? Trazei-me me um denário e deixai que eu o veja." E trouxeram-lhe um. Ele então disse a eles, "De quem é essa face, e esse título?" Eles responderam, "Do imperador." Jesus disse a eles, "Dai ao imperador as coisas que são do imperador, e à Deus as coisas que são de Deus". E eles ficaram muito admirados com ele.

Eu poderia dizer muito sobre essa passagem (e escrevi bastante... veja aqui um exemplo[Inglês]). Claramente eles estavam tentando fazer Jesus ou denunciar Roma publicamente ou apoiar a ocupação romana. O fato de herodianos e fariseus estarem unidos contra Jesus é essencialmente o mesmo que, em episódios antigos de Tom e Jerry, os dois se unissem contra um inimigo comum. Tudo bem, não é o mesmo; é muito pior. Mas deu pra entender. O que é, porém, notável sobre essa passagem não é tanto a astúcia Jesus. Mas as implicações de sua afirmação.

Seriam essas implicações de que deveriamos nos tornar agostinianos, criando uma distinção entre igreja e estado? Ou até mesmo separando-os em dois reinos distintos com diferentes reinvindicações tal como Lutero defendia (para mais sobre os "dois reinos", clique aqui[Inglês])? Não. Foi um astuto tapa na cara de César, sem denunciar César simplesmente. Ao apontar para a moeda deles (nenhum bom judeu deveria ter uma imagem gravada como uma moeda em seu bolso para começar), Jesus expõe a idolatria e diz que tais coisas já pertencem a César, e não a Deus. Se você tem coisas de César, deve rendê-las de acordo. Mas o que é de Deus pertence a Deus. Ou, para citar Dorothy Day, "Se rendêssemos à Deus todas as coisas que pertencem a Deus, não sobraria nada para César."

Para que você não ache que tais abordagens da Escritura são inovações recentes, eu lhe indico Ireneu. Ireneu foi um bispo no segundo século na periferia do Império em Lugdunum****, Gália. Era discípulo de Policarpo, que era discípulo do apóstolo João. Em outras palavras, ele estava distante de Jesus por 2 gerações e era amigo de um amigo de Jesus:

"O Senhor mesmo nos guiou a 'dar a César as coisas que são de César, e a Deus as coisas que são de Deus', nomeando César como César, mas confessando Deus como Deus. De forma semelhante, quem diz: 'Não podereis servir a dois mestres', ele mesmo interpreta, dizendo 'Não podereis servir a Deus e a Mamom', reconhecendo Deus como Deus, mas mencionando Mamom, como sendo algo que existe. Ele não chama Mamom de Senhor quando diz: 'Não podereis servir a dois mestres', mas ensina seus discípulos a servir a Deus, não se sujeitar a Mamom e não ser governados por ele..."[17]

Em outras palavras, parece que Ireneu acreditava que o que devíamos render a César é nossa renúncia. O senhorio de César é comparável ao de Mamom. Ele só é seu Senhor se você for seu escravo.

 

* Esse termo é usualmente traduzido para JAVÉ, IAVÉ, JEOVÁ ou SENHOR (com letras maiúsculas). É um termo muito característico da tradição judaica, que se refere ao Deus manifesto à Moisés - "Eu sou o que sou." - portanto deixei o original, que é ao invés de traduzir reproduz aproximadamente as letras romanizadas que formam o termo original no hebraico (N. do T.).
** Ao invés de usar uma tradução bíblica existente, preferi traduzi-las à partir de suas citações no post original em inglês (N. do T.).
*** Naturalmente que ele se refere à página original e não esta, mas deixo aberto também os comentários aqui para eventuais questões (N. do T.).
**** Hoje Lyón.

Notas

  1. leia mais sobre os pensamentos de Ched sobre a "Queda" aqui.
  2. Do artigo de Ched Myers, "A Queda", em The Encyclopdia of Religion and Nature
  3. Juízes 8:23
  4. de Come Out My People, p. 95
  5. ibid., p. 132
  6. Ezequiel 34:15-16
  7. Lucas 1:51-53
  8. Lucas 4
  9. Lucas 22:25-26
  10. veja Lucas 18:18-30 ou Marcos 10:17-31
  11. Lucas 12:13-34 é uma das passagens econômicas mais impressionantes de toda a Bíblia.
  12. veja João 12:31, 14:30, 16:11
  13. 1 Coríntios 6:1-6
  14. Romanos 13:1-7, NRSV
  15. Jacques Ellul, Anarquia e Cristianismo, p. 88
  16. veja o livro de John Howard Yoder: the Politics of Jesus
  17. Howard-Brook, p. 464
  18. Ireneu, Contra Heresias, 3.8.1