Foi numa noite vazia

O Sol havia se posto pouco tempo atrás. Olhou ao seu redor, com olhos vagarosos. O quarto jazia inerte. Faltava algo. Sentou à mesa, agora absorto e pensativo. Não se sentia bem. Algo lhe perturbava. Procurou nas lembranças algum indicativo da causa. Não achou. Não tinha brigado com ninguém... Não tinha cometido crime... E nem era um remorso mesmo o que sentia. "Seria um sinal de depressão"? E por que estaria deprimido? Não tinha motivos para tanto. Sua mente agora trabalhava mais exaustivamente, praticamente involuntária, processando mil informações e fazendo mil perguntas em busca da resposta. Mas cada pergunta que fazia à si mesmo parecia fazê-lo afundar ainda mais no escuro.Não aguentou aquilo por muito tempo. Num impulso, daqueles que vem de não-sei-onde, pegou as chaves e saiu de casa, andando sem rumo. Fazia, involuntariamente, o caminho de todo dia.

(Faço uma pequena pausa. Odeio criar expectativas que não vou cumprir. Se o leitor está imaginando que a narrativa discorrerá sobre um encontro com uma pessoa especial, do sexo oposto ou não, esqueça! Desconstrua o que sua mente ansiosa prevê do resto do conto. Tire todas as esperanças. Essas coisas lhe fazem mal, são como ervas daninhas na terra que se quer cultivar. Tem que arrancá-las primeiro e limpar tudo. Pronto? Se sim, pode prosseguir ou parar por aqui. Se não estiver, sua decepção é quase inevitável).

Um frio agradável o aguardava (agradável para ele, pelo menos). Mas tinha o coração pesado, e não saber o motivo lhe trazia um quase-desespero. Prestou atenção nos passos que dava para cruzar a calçada com lajotas desconfortavelmente espaçadas, de forma que não se podia andar naturalmente pisando-as, e também não se podia pisar nos vãos porque as lajotas eram altas, e era perigoso torcer um pé no descuido. Nesse momento, o desconforto (tanto interno quanto externo) atingiu níveis intoleráveis. Começou a falar. Falava com alguém ali que não podia ser visto. Talvez seu anjo, ou seu alter-ego, ou Deus. Dizia-lhe que se sentia mal, sozinho. Reclamava por não saber o porquê, ao mesmo tempo que "confessava" suas maldades, pra ver se o mar revolto dentro de si acalmava. Chegou à academia, o centro do conhecimento, onde estudava. A praça central mostrava sua discreta beleza noturna, enquanto um grupo de boêmios que vinham de longe para um congresso festejava ao som de músicas ritmadas e de palavras de duplo-sentido. Cruzou a circunferência, e caminhou em direção à uma barraca de sucos e lanches, que estava naturalmente fechada. Daquele lado, o silêncio era quase total. Nenhuma alma caminhava por lá. Era uma época vazia, assim como a noite. Virou-se para contornar o círculo, chegando às escadarias do prédio central. "Ainda não te entendo... Depois de colocar a vida pra fora, me sinto melhor, mas você ainda não me deu paz..." Subiu alguns degraus, fitando o pátio interno. Boba curiosidade, estava igualmente vazio. Sentou na escada. À sua frente, uma das ruas que deixava o centro e prosseguia até os outros círculos da monstruosa cidade acadêmica. Estava vazia, limpa, leve e estranhamente convidativa. O diálogo ainda era quase um monólogo. Mas algo estava por vir. Um ciclista passou, quebrando por pouco tempo a ausência de vida nos arredores. Sumiu na distância... De repente, a voz da boa loucura lhe soou aos ouvidos: "Tira o agasalho..". A noite estava fria. Sem agasalho, logo estaria tremendo. Mas reconheceu a doce melodia que descia do céu até seus ouvidos. Hesitou ainda, por mais um instante. Tirou o agasalho. "E agora, pra quê fiz isso"? Ele sorriu. Não, o outro, que agora participava da conversa. Não podia vê-lo, mas sentia seu sorriso de canto de voa, como de quem se delicia com um plano perfeito, uma sobremesa ideal, a vitória suprema. "Corra", sussurrou. Agora seu sorriso havia contagiado ele, como se uma nuvem de um mundo inteiro lhe entrasse pelas narinas. Como se a criança gritasse triunfante após colocar a última peça de um quebra-cabeça. Em um segundo, percorreu suas memórias pelas muitas vezes em que tinha corrido, por estradas velhas, brisas e nuvens ao pôr-do-sol. Esperou uma confirmação, pronto à obedecer o tiro de largada. "Corra como você sempre correu. Com o coração".



Disparou, à princípio loucamente. Depois acertou um passo mais constante. Desceu a rua convidativa. Agora a mente esvaziara, isenta de tarefa de responder às questões que o afligiam. Corria com um sorriso ainda. Enquanto corria, não falava, apenas ouvia. Ele lhe dizia para virar, para acelerar, para desacelerar. Lhe indicava o caminho, e lhe assegurava totalmente. Agora contornava o círculo externo, e transbordava. Sua respiração começou à ofegar, e ouviu ele dizendo para ele parar. Não entendeu. Poderia se matar de correr, mas não queria parar. Porém, seguiu a instrução. "Você terá que correr amanhã, não pode correr demais hoje... Corra todos os dias, mas nunca corra tanto que não possa correr no dia seguinte". Voltou para casa. Estava ao avesso de como tinha saído. O sujeito que saíra agasalhado, parado, vazio e triste voltava sem agasalho, de cabeça alta e sorriso. Agora entendia. Sua mente acordou e pensou se não tinha sido um sonho. Sua respiração ofegante dizia, aos trancos e barrancos, que não. E uma assembléia se reuniu para apurar, estupefatos, uma história muito estranha. Nada podiam dizer, pois a humanidade estava em seu ser. E mesmo que não corresse todos os dias, por ser um humano e, consequentemente, falho, sempre se lembraria que, correndo, encontrara Deus. Que, correndo, estaria com ele, falando e ouvindo. E a cada encontro, sua alma deixaria de ser o que era. E seus olhos brilhavam, assim como o sorriso da Lua, e além...

começando a correr... nessa

começando a correr... nessa corrida eterna... :)

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