Foi assim em algum momento do passado...

Pedras pequenas e escorregadias preenchiam a pequena estrada. O menino observava os pequenos brilhos com interesse. Talvez não soubesse ao certo o que significava aquele lugar. Talvez ninguém saiba. Havia uma placa, mas não conseguia ler o que estava escrito. Parecia um aviso. O caminho continuava adiante, logo desaparecendo em curvas misteriosas. Virou-se para observar as duas figuras que o seguiam.

Aquele homem sério da música. Vestia uma roupa cor-de-chuva. O instrumento à tiracolo, mãos no bolso e olhar perdido no horizonte. Parecia estar em outro mundo, mas pela expressão grave, também parecia que conhecia o caminho e estava bem a par da situação. Achou prudente não incomodá-lo.

O outro era o homem que visitava a Ciudad de vez em quando, em farras e barulho, rindo e falando em voz alta, fazendo piadas e sempre disposto. Mas não estava alegre agora. Coçava sua barba, fixamente olhando para o caminho, bastante desconfiado.

- Homem de barba, por que estamos aqui?
- Porque viemos seguir por esse caminho adiante.
- E por que paramos?
- Estou desconfiado, existe um alerta, não sei o que há além dessa placa. Se alguém sabe, é o homem de chapéu aí.
- Ninguém sabe. - Replicou o menestrel, sempre atento apesar de parecer absorto. - Mas com certeza é arriscado.

O menino ficou apreensivo. Que perigos podem haver além da placa? Será que criaturas monstruosas, florestas medonhas ou homens maus? Viu ainda o homem de barba verificando suas armas, como se estivesse se preparando para um combate. Seus olhos suplicantes buscaram apoio no homem de chapéu.

Ele notou, suspirou e livrou-se de sua introspecção. Olhou o menino nos olhos que quase choravam. Agachou-se, nivelando seus olhos com os dele. Tirou seu chapéu e colocou sobre o menino. Retirou o instrumento do tiracolo e começou a dedilhar.
- Meu menino, não tenha medo.Vou lhe cantar tudo que sei sobre essa estrada:

"O amor e a saudade
São arroz e feijão
Da estrada dos muitos
E ainda caminho da solidão

Se sentir que nunca sentiu
Não viveu, não cruzou a placa
Mas há na vida
O momento do facho entre as nuvens
Uma semente de saudade
Um sentimento de muito além
A lhe indicar o caminho.

Dizem, sim, senhor
Que muito corta o coração
o caminho do amor
Por ser humano
e não poder amar
e ao amar,
ser mais
humano.

Veremos as mais belas árvores
as mais lindas estrelas
e os nossos pelo caminho
indo e vindo
E levarão parte consigo
e por hora nos sentiremos menos
mas seremos mais, seremos inteiros

E todo o belo, o aroma
será mais, será profundo

E nos perderemos
e encontraremos
e ficaremos desesperados

Mas ouvi dizer
que sempre no fim
tem algo muito bom para compensar
Vale à pena, vale à pena.

E todo o belo, o aroma
será mais, será profundo."

O menino sorriu, e agora começou a imaginar as coisas boas. As lindas paisagens, as pessoas simpáticas, os bons amigos, as brincadeiras divertidas, o sono profundo de descanso, o refresco de uma cachoeira, o calor da lareira com amigos num dia de frio... Mas o poeta fingiu um sorriso, pois ainda sentia o forte peso.

Os três então, de uma vez, seguiram viagem. A viagem cuja perigosa estrada leva ao ser humano. E nenhum deles sabia o que encontrariam na próxima curva.

seu mundo tem um cheiro

seu mundo tem um cheiro inconfundível... a sua cara... como sempre, suave e tocante de um jeito único

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