Flutuações Incertas

Cansado, a cabeça não sabe onde está
o abismo dos fluidos sentimentos
escorre-se catastrófico
e sobre o resto daquilo que foi desejo
jaz a carcaça putrefata de um animal horrendo
Os abutres avistam com olhos afiados
e a refeição do mais apetitoso remorso
embate-se no horário da culpa

Não se sabe se se remói
ou talvez se ande adiante
como criança em face de uma decisão
perdido como um cego num furacão

Num dia escuro de penhascos e rochas cortantes
uma luz insiste em brilhar
Raios da sentença que excede a justiça
vêm do infinito além-mar, tocar-me

A fera do orgulho, indomável,
combate o ser e seu eu.
na dúvida que me resta
decido... Tenho que decidir
a segurar na única certeza
o chão sólido, que uma vez não foi,
mas que será rocha até o nunca,
esperar o vento morte passar,
pois já não me pode carregar
Só restará o núcleo de uma verdade
Ele é brilhante, e sozinho assassina as sombras de meu mundo

Uma ovelha erra, estúpida
se desespera
esquece que há um quem atrás do cajado
a terra seca das cinzas lhe enjoa
pensa inutilmente que a comeu pela manhã
não sabe mais da cor verde dos campos
logo lhe parece que o Sol nunca existiu

Mas insiste a aurora
arrasta a teimosia para trás
mostra-se grande aos olhos esquecidos
e só lhe resta o doloroso e alegre confessionário
lhe sobram as sinceridades
e a desistência de uma luta impossível,

ou não...
Sinto a indignidade
com o peso das muitas pedras
feitas em cinzas
mas não há nem o quê de surpresa
pois assim, da fraqueza se faz a força,
e da escuridão se faz a luz.