Fim de Tarde

Amarelo dezessete horas perfura a retina por detrás da franja
Faz-se um mundo Midas de muitas profundidades,
névoas amarelo-claras no terceiro quarteirão, agora laranja
Têm-se café com bolachas e muitas receptividades

O abutre do desejo sucumbe no hoje dourado
lentamente carnificado, tão pouco lisonjeado
As batalhas que se travam ao longe
silenciosas ao som da varanda e de sua conversa
póstumas às pequenas crianças ávidas e ex-repreendidas
Pintado de vermelho o céu do diálogo já de poucas palavras
Toda fé que se preze em seu sangue passa pelo pequeno


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(Tem uma melhor que devo postar em breve)

Escrevi isso faz uma semana. Faz tempo que não escrevo de fato o que se tem passado comigo. Isso é porque me satisfaço muitas vezes com a poesia, esquecendo-me que poucos a compreendem com a profundidade com que as escrevi. Logo, preciso talvez escrever em linguagem menos "cifrada".

Cada momento que se segue aponta para uma nova fase da vida. Muito das experiências, negativas e positivas, dos últimos anos (dentre os que considero anos de lucidez) contribuíram para meu amadurecimento e crescimento. Hoje me sinto bastante humano (embora ainda desumano). A poesia, minha fiel companheira, interiorizou-se nesses 18 meses de caminhada com ela. Sofreu grandes mudanças de estilo, verdade. Mas escrever aqui e no meu pseudo-diário é algo muito importante pra mim, tanto quanto as leituras. Pena não poder gastar mais tempo com eles.

Provavelmente poucas pessoas estão lendo até aqui, mas isso não me afeta tanto. Algumas pessoas me consideram triste, o que está muito longe da verdade. Tenho uma personalidade melancólica, no máximo, se é que isso existe mesmo. Mas na maioria das vezes sou bem-humorado e tranquilo, embora tímido. Portanto não é porque estou escrevendo isso que pode se concluir que estou num momento "difícil" da vida, mesmo porque não estou. Nem acredito mais muito nesse tipo de coisa. O que vivo é o hoje, com suas batalhas e conflitos, com uma verdade dolorosamente mais evidente. Sim, uma vez que se enxerga como humano entre humanos, e se sabe quem realmente se é, a coisa fica feia. Ser confrontado com meus defeitos e recorrentes pecados faz parte do desenvolvimento de uma consciência mais madura, principalmente na questão de depender de Deus para toda a vida.

Talvez para alguns poucos que chegaram até aqui, ouvir de Deus pode soar estranho a essa altura do campeonato (se é que alguém acompanha esse blog). Mas sempre falei, algumas vezes sem citar, outras citando indiretamente. A existência dessa pessoa é o que me dá sentido à vida. Os pensamentos e filosfias (e mesmo o conceito de Deus) compreendidos como energias, coisas etéreas e soltas pelo ar, são completamente volúveis e não-confiáveis por conta de nossos subterfúgios egoístas. Mas um Deus que toma café-da-manhã comigo como um velho amigo não se dobra aos meus fúteis e incompletos conceitos, nem às minhas espertas teorias para me justificar. Entretanto, ao mesmo tempo, ele é completamente gracioso, e seu abraço independe do meu estado e do número de cagadas (desculpem) feitas no ontem. Só há espaço para um crescente amor, um amor difícil de se encontrar nos "homens de Deus" e no mundo todo. Este derruba preconceitos e fortalezas internas, e por seu caráter incondicional e imerecido coloca toda a humanidade, sem exceção, num mesmo patamar. Mais que isso, ao ser inundado dos maiores paradoxos das sensações, sinto-me inferior a todos e infinitamente contente por isso. Minha luta diária é renunciar a luta. Ao fazê-lo, encontro descanso no caminho certo que inspira crescente confiança num futuro. Não preciso de sucesso, ou de qualquer outra coisa que se pode oferecer a um homem. Tendo tudo, o que mais preciso?

E assim me sinto seguro e bem, embora às vezes eu cruze desertos insuportavelmente silenciosos onde sou deixado à vagar para ser lapidado. Nestes, sinto que a "igreja" é o maior diabo, ao produzir culpa nos seres julgando-os distantes de Deus. Uma vez superado esse discurso vazio e arrogante, é necessário aprender à agir também com amor. Viver de verdade é isso, e seguimos viagem, rumo ao consumar das eras, a cada belíssimo Sol de tarde a pintar de dourado as folhas secas.

Pretendo colocar mais pensamentos aqui, talvez mais curtos por pena dos leitores.
Se você leu até aqui, ou você me estima mesmo, ou eu estou escrevendo melhor do que imagino... :)

Abraços à todos
Sigam à Cristo, o grande Mestre...

Pelos dois motivos que você

Pelos dois motivos que você colocou, eu li o texto todo...hehe, mas, além disso, o texto foi ficando muito interessante. Alguns comentários; a colocação sobre Deus foi muito boa, mistura de afeto com seriedade, amor incondicional, um pouco de A Volta do Filho Pródigo e do entendimento da graça. Sobre a igreja, tenho sentido um pouco do que vc descreveu....não seria a igreja o lugar livre de julgamento? Aonde há acolhimento e liberdade para o perdão, livre de regras e da culpa gerada quando elas são quebradas? Penso que estas dúvidas, os "desertos", o descobrir-se como ser humano e nossas feiuras pode muito contribuir para entender os outros humanos e facilitar na doação do amor que devemos à eles. Cumprido este amor, a igreja seria melhor.Por fim, todo o texto foi bem legal, mostrou amadurecimento e liberdade, acho que isto é deixar o sol mostrar quem nós somos!!Agora vc terá que me estimar muito para ler tudo o que escrevi....hehe!!! Até mais...bjo!

Uma vez me disseram que meus

Uma vez me disseram que meus textos tinham lucidez de pensamento, o que eu não creio, realmente. Passo o adjetivo aos seus. Deus abençoe e não deixe de desenvolver ainda mais o dom.

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