Entre Ratos e Traças...

Algumas vezes o menino resolvia visitar a biblioteca da Ciudad. Não eram motivos excusos como tédio ou ócio que o levavam lá, mas também nenhum motivo muito especial ou urgente, nenhuma necessidade específica. Era apenas o dia de ir lá, o céu dizia isso. E caminhava só, sliencioso, por entre as muitas estantes, como se estivesse à comer as introduções sem lê-las, só pra poder escolher algo interessante para se ler. Não raro, porém, dispensava os belos livros de figuras e mesmo os volumes de ficções, lendas e longas histórias de mundos perdidos em troca da curiosidade de fuçar na sala dos documentos. Lá jazem raridades e curiosidades muitas vezes bastante intrigantes. Escritos de tempos antigos, de autores anônimos, escritos à mão, às vezes incompletos, com a tinta manchada. Segredos, contos, relatos, receitas, coisas misteriosas que todo menino adora ver e imaginar mil coisas...

Nesse singelo dia, ele encontrou algo bastante peculiar. Três tiras de papel, escritas à tinta com uma letra um tanto relaxada, dando a impressão de ter sido escrita sem apoio. Talvez em algum campo longínquo, sentado na relva, por um guerreiro só, ou um viajante perdido, imaginou o menino... Mas logo parou de observar somente a forma e decidiu verificar o conteúdo.

Segue a transcrição do documento, contido nas Crônicas Desconhecidas da Ciudad, Vol CLXXIII, número 7 (Formato original das quebras de linha mantido propositalmente):


Parece que algo
precisa deixar suas
andanças nebulosas
e marcar sua pre-
sença neste papel.
Ele é estreito, parece
que quer encurtar
minhas expressões.
Talvez torná-las
mais sintéticas.

Enquanto isso tento
fazer do prazer da
escrita uma diver-
são enquanto me
distraio com o ron-
ronar felino de
Kissy¹ ao meu lado
e espanto uma a-
meaçadora formiga.
Não, todo o meu
desejo, meu prospecto
de vida foi substan-
cialmente reduzido
como as linhas deste
papel. De fato, não
só reduzidos foram
meus horizontes, mas
também ampliados.

Eu fujo e busco
incessantemente esse
pássaro que me
fugiu. Talvez eu de-
va buscá-lo mas não
queira encontrá-lo.
Não sei.
Está aí uma certeza.
O pouco de preto
e branco já está
longe, ou está
condensado.
Ah, já falei do
céu-azul-profundo-
de-paz? Ele se
parece com essas
linhas, leve e solto,
profundo e cheio
de despreocupado
propósito. E sig-
nificado.

Porque espero de
mim mesmo buscar
isso tudo? Porquê
o fazia antes, e
o fazê-lo por si
só me deu sentido,
por um tempo. Mas
foi o céu, por ele
próprio, que se a-
briu diante de meus
olhos. E me mudou,
e o que sou hoje
já não se lamenta
das mesmas carências
de antigamente.

Não posso prender
a forma enquanto
o conteúdo se trans-
forma a cada dia.
Dentro do todo, o
tudo tem seu sentido
para existir, estar
Nele é ter o sentido,
é existir. A paz é tal-
vez a consciência
de andar pelos
seus corredores, que
são o céu azul, que
são a terra que des-
lumbra e que cansa,
e andar por ela
é encontrá-lo em ca-
da esquina.
Às vezes em silêncio,
porque o silêncio é
também palavra e
consciência. É muitas
vezes precisamente
o que precisamos
falar. Às vezes, o
rei do céu azul
só precisa sorrir, ou
abraçar. Ele inven-
tou essas coisas, ele
é esses gestos profun-
damente, completo.
O simples e atordoan-
te encontro com ele
traz uma satisfação
tão grande que a mor-
te e todo o mal
ficam completamente
sem poder, porque
não sobra espaço
para eles onde Ele
está.

Nem sempre é assim.
Não sou mais tão
romântico. Na verda-
de, me tornei tão rea-
lista que poucas coi-
sas me causam as-
sombro. Mas muitas
me surpreendem e
me alegram, mesmo
simples. Perfeito de-
mais? Quem sou é
um hiato entre algo
incerto e quem quero
ser. E quem sabe?
Só me é crucial que
a memória registra
fielmente que αγαπη ²
nunca me deixou

¹ Tudo indica ser o nome de um cão doméstico, apesar da descrição apontar para um gato.
² Do grego, ágape, "amor caridade", tipo de amor altruísta. Não foi possível transcrever os acentos
Psili e Oxia sobre as letras Alfa, respectivamente.




Que leveza e

Que leveza e profundidade!Simples, conciso e reflexivo.^-^

sabe o que me lembrou? o

sabe o que me lembrou? o relato no papel higienico de Violet no V for Vendetta!

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