Dois Anos

Como é de costume, o dia amanheceu nublado. Céu de muitos cinzas. A Ciudad esteve em intensas atividades ultimamente, acromática. Esqueceu-se de si. Não totalmente, nunca totalmente.

O bárbaro viu ao longe a Ciudad se encher de luz ao amanhecer sem Sol. Fora uma noite intensa de festa, como só ele é capaz de aproveitar. Apesar de bárbaros só fazerem piadas com tudo e aparentemente nunca refletirem, ele reconheceu seriamente que hoje é um dia de se lembrar. Bárbaros não têm memória muito boa. Não são bons em ter saudades, só em matá-las. Lembrou-se do poeta-trovador. Será que ele dará as caras hoje? Tem estado sumido ultimamente, não se ouve mais muito suas canções tristes e produndas, capazes de amolecer o coração mais congelado.

O bárbaro sorriu. Sentou-se na relva, entre a Ciudad e o resto do mundo. Olhou para o céu, sem saber se o apreciava ou não. Não é muito desses negócios de cinzas, pretos e brancos. Bárbaros gostam mesmo é de um azul infinito, simples, puro, sozinho. Um azul pra se perder na vista, como o mar. Sorriu de novo. O mar trazia boas lembranças, grandes amigos. E bárbaros sabem muito bem o valor de amigos. Resolveu ficar ali um pouco mais. Quem sabe não acontece algo, ou aparece alguém.

O poeta se ajeitou, sentado no telhado da torre da igreja. Olhou as ruas cinzentas da Ciudad, seus agitados transeuntes. Fazia um ano daquele festival. Não, o aniversário da Ciudad nunca é igual. Embora o céu esteja cinzento, a Ciudad já mudou de forma, de lugar. Prédios sumiram, e no lugar outras casas se ergueram. O poeta lembra o que carrega. Tem em si as cicatrizes da cidade. E poetas sim, têm boa memória e lembram das coisas. Mas lembram delas de um jeito diferente, da forma como eles enxergam através de seus olhos misteriosos.

Depois da partida do navio, a quase um ano, muito aconteceu na Ciudad. Houve muita tristeza e dor. Mas isso passou, como era para acontecer. Mas as mudanças dessa tempestade demoraram a ser compreendidas. O prefeito, assustado com a devastação, resolveu cercar de altos muros a Ciudad, e não permitir estranhos. Nessa época, ele surgiu ao poeta: o alegre bárbaro. A princípio, ele lhe pareceu superficial e hedonista, mas conforme o conheceu, percebeu o quanto ele era verdadeiro em sua essência e jeito de ser. Precisava dele, e a Ciudad precisa também. Na verdade o bárbaro já existia a muito tempo, ninguém se lembra de quanto.

O poeta ergueu os olhos e o avistou, fora da Ciudad. Estava sorrindo, ora contentando-se com a brisa e um céu que começava a abrir, ora olhando para a Ciudad com ar de expectativa. O poeta sorriu de volta. Era da natureza do bárbaro não entrar muito da Ciudad, assim como a sua própria era de estar sempre nela. Entretando, seus encontros eram de uma suave dissonância complementadora. O bárbaro aprendera poesia e amor. O poeta aprendera a festa e o vigor.

Voltou a olhar para a Ciudad. Avistou o menino correndo, distraído, deslumbrado, procurando algo. Sorriu ao vê-lo tropeçar e ralar o joelho. Lembrou-se das cicatrizes e seus muros. Não podia culpar o prefeito. O amor causa choques e reações adversas. Mas hoje, o portão estava aberto. O bárbaro podia circular, e junto com o poeta cantar as mais ridículas canções de amor, arrancando risadas do menino (porque meninos não entendem e acham graça).

Uma brisa soprou suave, fresca. Mas com ela alguns grãos de areia que lhe entraram nos olhos. Uma ironia do vento. Quase viu seu bom amigo sorrindo maroto por isso. Como é tempo de lembrar, é verdade, o deserto precisa ser lembrado. Tempos de ausência do poeta e de todos. Não, não fora um período de tristeza, de dúvida ou de crise. O céu era azul, nenhuma gota de orvalho sequer. Era apenas o silêncio desconfortável. Nele a Ciudad se viu tal como é, e nada podia fazer. Os sapatos gastos, pés cansados, nada acrescentaram. Seu amigo não aparecia para falar nada. Não havia vento, nenhuma brisa sequer. Barulho de mar, nem se fale. Mas o deserto chegou ao fim. Nunca acabara de fato. Aqueles grãos de areia sempre o faziam lembrar do deserto e de suas lições. Afinal o deserto faz morrer, e o poeta sabia que tinha morrido. A Ciudad tinha morrido, por isso estava diferente.

O menino parou. Tinha visto ele no topo da torre, e agora o olhava com um brilho nos olhos, com expectativa. Acenou sorrindo, e o menino retribuiu com mais expectativa ainda. Olhou mais uma vez para o bárbaro. Estava recostado numa árvore, descansando tranquilo. Atrás dele, um horizonte já azul, e relva bem verde pelo chão. O céu começava a limpar mesmo. Puxou o instrumento e logo começou a música. Era suave, mais leve que o vento. As cores a acompanhavam brincalhonas. A alegria e o contentamento harmonizavam-se como uma dança. Não, de fato havia uma dança, ali, naquele momento. As últimas nuvens se dissolveram, e fez-se um Sol de muitas cores num céu de puro de profundo azul. As cores voltavam à cidade. Todos pararam seus afazeres para festejar, enfim! O prefeito decretou feriado e mandou escancararem as portas da cidade. Todas elas. A dança contagiou até os mais recatados, que aos pulos felizes agradeciam ao Sol e ao céu.

O menino olhou para o céu feliz, encantado, satisfeito. Ouviu uma voz no ar, que se encaixava perfeitamente à música. Sorriu para alguém que viu de relance numa das esquinas.

O bárbaro, lá de longe, se deleitou com a música e a festa. Comentou com alguém ao lado, tentando lembrar o nome da música (eles tem mesmo memória ruim). Lhe responderam que essa música nunca havia sido tocada. "Hoje, ela se chama Hoje!". A voz ressoou por dentro trazendo paz.

Ai q gostoso. Foi um filme em

Ai q gostoso. Foi um filme em meu pensar. E relembrar alguns textos pelos hiperlinks.Agradecida estou pelo suave e belíssimo escrito, nobre cavalheiro e querido amigo.Bons anos ainda estarão a vir. E Deus há de permitir!reverências mil!

é um texto encantador.

é um texto encantador.

devo fazer um comentário

devo fazer um comentário geral: existem pessoas que escrevem "bem", mas no que tange a mim, você escreve incrivelmente bem, vc alcança o dentro.{inclusive e especialmente as "poesias" de estilo único... as quais eu até reluto em chamar de poesias, pq em geral o que se designa por esse nome não faz muito o meu gosto}...realmente bom...

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