Depois de uma tarde de cinema

Era fim de tarde, fim de semana, dia dos namorados... e era o fim do filme. Já estava em cartaz há algum tempo, pouca gente na sala para um dia 12 de junho. Descemos as escadarias e, antes de virarmos em direção à saída, notamos no escuro quatro vultos na direção oposta, onde é usual existirem saídas nestas salas. Curioso, caminhavam lentos, e nada havia no canto para o qual se dirigiam. No escuro, vi bengalas tateando. Eram cegos.

Sentindo-me constrangido, imediatamente fui ao seu encontro e gentilmente anunciei que a saída era do outro lado, oferecendo meu ombro para guiá-los. Nem me passou pela cabeça na hora o fato mais curioso para mim naquele momento: o que faziam 4 cegos sozinhos numa sessão de cinema? Não pensei pois, à partir daquele breve instante em que os quatro imediatamente se puseram em fila, mãos nos ombros, à me seguir onde eu fosse, algo mudou em mim.

Levei-os pela tortuosa e labiríntica saída dos cinemas, pensando em como aquele lugar parecia inóspito a deficientes visuais. Alertei sobre o degrau. Uma moça, a ,aos enérgica dos quatro, logo atrás de mim, parecia liderar. O rapaz em seguida transmitia mais alertas - como pés de cadeira, portas, etc - do que eu para os demais. Amanda perguntou se eles tinham gostado do filme, e prontamente disseram que adoraram. Como, meu Deus? Muita gente em filas, muitos olhares que para eles não existiam. Mas para mim, foi mais que uma cena peculiar.

Subimos uma escada rolante. Notamos que o último da fila tinha possivelmente uma deficiência física motora. Perguntei onde eles queriam ir. A moça falou o nome da loja. Não conhecíamos, mas logo a avistamos. Jóias. É essa mesmo? É, onde tem alianças! Sim, muito me veio a mente depois, sobre visão de mundo. Entrei na loja e chamei a vendedora. Apontei para eles como seus clientes, a atendente olhou para eles e depois se voltou de novo para mim, perguntando o que eu queria. deve ter pensado que era um absurdo aquela excursão de deficientes visuais numa loja de jóias. Ignorei-a e perguntei se podia deixá-los agora que estavam na loja. Afirmaram que sim e agradeceram. Eu é que saí dali muito grato.

Amanda me abraçou a medida que nos afastamos. "Quero chorar". Olhei seus olhos úmidos e também esbocei meu choro. Tanto reclamamos ou nos fazemos de incapazess. Temos preguiça. Não conseguimos enxergar além dos olhos. Que mundo é esse? Como essas pessoas sobrevivem num mundo cheio de gente que, tendo olhos, finge que não vê as dificuldades do outro. Pensei pouco, senti muito. À noite, à medida que recordei os momentos, chorei. Nem sei dizer porque. Mas não vou esquecê-los, estarão no meu coração sempre.