Chocolate bem amargo

Stephen é brasileiro, apesar do nome pouco comum. É jovem, trabalhador, toca bossa-nova no violão, conta piada, estuda Marketing, gosta de ler. Stephen está fazendo aulas práticas de direção, enquanto isso usa diariamente o transporte público para ir trabalhar. Stephen usa camisa cinza, tem um guarda-roupa cheio delas, uma marca pessoal. Ele gosta de café, chá, boa comida e chocolate. Daqueles chocolates com bastante cacau, cacau que deixa a cor deles escura, negra. Stephen é negro.

É uma quarta-feira típica, indo para o trabalho, em Barão Geraldo, distrito nobre de Campinas. Nobreza que se vê nas casas, nos carros, nas roupas e na própria gente. No caminho um Pão de Açucar, excelente opção para quem gosta de cafés especiais, de cervejas especiais, de chocolates especiais. E por que não um chocolate especial? Na prateleira, muitas marcas, importados, orgânicos, nacionais, com mais ou menos cacau. Em dúvida, faz algumas comparações, mede, calcula. Afinal, já que ia pagar caro, tinha que valer a pena. Opta por um chocolate orgânico, desses com embalagem reciclada, de 63% de cacau. Negro e amargo.

No caixa, um susto, onde está a carteira? Lembra-se de ter colocado ela na prateleira para comparar os chocolates, com sorte ainda estaria lá. Cancela a compra e volta rapidamente. Não está, ora, alguém já tinha visto, talvez tivessem entregado a um funcionário ou segurança… Ao virar dá de cara com o segurança, que por mágica estava ali perguntando se ele precisava de ajuda. Conta o caso e é informado que a carteira fora encontrada.

Os olhos de todo o supermercado não viram um segurança devolvendo a carteira do rapaz que ele seguiu até o corredor. Eles viram o segurança pedindo para que ele o acompanhasse, atravessando aquela distância enorme que existe num constrangimento de raízes históricas. Um jovem, negro, sendo levado por um segurança ao subsolo do supermercado. Mas ainda não era o bastante.

Ali no subsolo do supermercado, ninguém à vista, um segurança armado e um jovem negro. O segurança mostra a carteira, é essa mesmo. Mas ele tem algo mais a dizer.

Ele diz que está tudo gravado em câmera.

Ele diz que Stephen tinha intenção de furtar um chocolate colocando-o na mochila.

Ele diz que ele ficou nervoso ao ver um funcionário e por isso largou a carteira para trás.

Ele diz sem se preocupar de ser uma acusação grave. Ele já pegou estudantes, até professores, furtando produtos.

Sem conseguir acreditar no que ouve, Stephen tem que abrir a mochila, para obter de volta seu documento, em posse do segurança armado. Uma jaqueta, vocês não vendem jaquetas né? Um desodorante usado, também não vendem pela metade né? Coloca um a um os itens. Vai colocando a dignidade e a alma na mesa para inspeção de um segurança que, surpreso de não encontrar nada, prossegue com uma lição sobre como ele não deveria mais furtar, que não vale a pena. Não vale a pena. Ele pode ver a intenção do furto, ele vê no rosto. Ele deixa claro e libera o jovem.

Stephen compra o chocolate, um chocolate negro e amargo. Bem amargo.

Muito bom o texto Glauber. E

Muito bom o texto Glauber. E uma tristeza sabermos que esse tipo de coisa acontece ainda hoje. O texto me trouxe uma memória afetiva que escondo sempre que frequento lugares como Pão de Açúcar, que é o disfarce. Quase que inconscientemente eu penso que tenho que me colocar na posição de disfarçar que não sou um bandido. É meio estranho, mas me coloco imaginando que certas ações que eu tome dentro destes lugares pode levar as pessoas a pensarem que eu seja um bandido, e por isso tenho que programar certinho as ações para que não dê aparência de ser: acenar a cabeça para o segurança reconhecendo que vi que ele está ali, não levar coisas na mochila que podem me incriminar. Depois de um tempo o corpo acostuma e vira hábito. Só penso nisso de novo quando vou para um novo espaço onde não deveria estar.

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Deveria ter chamado a policia

Deveria ter chamado a policia antes de abrir a mochila. E processar o mercado.

E se Stephen fosse branco?

E se Stephen fosse branco? Qual seria o teor do chocolate?

Franz, o texto está ótimo, só

Franz, o texto está ótimo, só tome cuidado com a famigerada crase: "valer a pena" é o mesmo que "valer o esforço", portanto sem crase.

Quanto à história em si, concordo com os outros comentaristas: ele deveria ter feito um escândalo, não podia ter deixado barato assim.

Obrigado pela correção, essa

Obrigado pela correção, essa mania de por crase em tudo.

Precisa mesmo é processar

Precisa mesmo é processar esse segurança escroto pra ele pagar bem caro pelo preconceito e pelo constrangimento que ele causa.

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