Capítulo 53 - Cena 15

"Cheiro de chuva", piscou algo em sua mente, alardeada pelo odor úmido e agradável. Desde que não podia mais enxergar, o olfato lhe trazia muitas surpresas. Mas essa era especial. Estava de volta à Ciudad. Foram longos nove anos de exílio. Voltar para seu lar após tanto tempo e tanta luta era algo que lhe causava um redemoinho de sentimentos. Era confuso, sim, e trazia memórias demais. Algumas abstratas, impossíveis de se identificar, talvez fossem memórias de sentimentos, cujas circunstâncias tivessem caído no oceano do esquecimento. E esse cheiro de chuva, cheiro de terra, só aumentava essa sensação. Inevitavelmente, a lembrança dela era maior quando pensava em chuva. Era linda na chuva. Mas procurava não pensa muito nela, era tudo incerto. Há muito tempo havia concluído que deveria guardas essas lembranças em baús fechados, se quisesse sobreviver. Não se permitia ter muitas esperanças.

Os empregados muito atarefados cruzavam os corredores com velocidade. "Ah...", suspirou, lembrando de sua nova posição, que lhe trazia de volta. Agora era alto-oficial, o primeiro cego à assumir essa posição. Até mesmo prepararam-lhe um lar sob medida, de forma que o relevo das paredes lhe permitia se localizar facilmente. Experimentou com os dedos a nova visão do lar. Sorriu. Sua falta de visão nunca o deixara triste. Agarrava-se às lembranças das cores, e desenvolvia novas formas de ver o mundo. Buscou a varanda da nova casa, atraído pelo crescente aroma de chuva. À princípio, desconfiado, cauteloso, mas logo andava rápido, quase raspando a mão na parede, ansioso pelo ar livre. Chegou à ampla varanda, e sentiu o vento no rosto, arrancando uma lágrima dos olhos que vagavam perdidos. Caminhou até a beirada, e ficou ali, imaginando com seus sentidos a cena tumultuada de cinza sobre cinza no céu acima, pronto à despencar. Sua mente viajou, buscando nas lembranças as chuvas da vida, cada qual especial, profunda. Esperava ansioso os primeiros pingos.

Um dos empregados surgiu porta afora, se aproximando. Viera anunciar uma visita, aparentemente desconhecida. Em qualquer situação, teria imaginado que era mais um burocrata chato vindo lhe dar as boas-vindas com olhares de segundas-intenções (embora eles se julgassem espertos, seu olfato lhe denunciava o cheiro de rato). Mas o anuncio de chuva era sinal de coisas boas. Que tipo de pessoa sairia para visitá-lo num tempo que se fechava? O empregado se retirou.

À princípio ele esperou ouvir o visitante se apresentar, ou pelo menos caminhar. Só ouvia o barulho do vento. Estranhou, e sua mente logo reagiu à um perigo, desconfiada. Foi aí que o vento soprou forte no sentido opost, trazendo o cheiro do visitante misterioso à alma do oficial de olhos perdidos no espaço. Perdidos, mas marejados. Impossível descrever o aroma, de mais de mil flores. Impossível não reconhecer quem estava atrás de si. Ainda atordoado, sentiu-a aproximar. Caminhava leve, suave, quase dançando. Não lhe cabiam palavras, como sempre acontecera nesses momentos, apenas um sorriso com lágrimas. Nove anos de distância, e ela estava ali. Um abraço somente, e as lágrimas se misturaram, nesse pingo de eternidade, às gotas que começavam a bombardear a terra, numa sinfonia alegre de saudade incontida e amor.

Para viver um grande amor,

Para viver um grande amor, preciso é muita concentração e muito siso, muita seriedade e pouco riso — para viver um grande amor.Para viver um grande amor, primeiro é preciso sagrar-se cavalheiro e ser de sua dama por inteiro — seja lá como for. Há que fazer do corpo uma morada onde clausure-se a mulher amada e postar-se de fora com uma espada — para viver um grande amor.Para viver um amor, na realidade, há que compenetrar-se da verdade de que não existe amor sem fidelidade — para viver um grande amor. Pois quem trai seu amor por vanidade é um desconhecedor da liberdade, dessa imensa, indizível liberdade que traz um só amor.nem parece que foi Vinícius de Moraes ;pah... ah chuva... será que pedimos para chover mais ou para chover menos?

espero que vc não pare nunca

espero que vc não pare nunca com essas histórias

Bom, mas como nunca é tempo

Bom, mas como nunca é tempo demais, espero que vc encontre para elas belos finais. E depois, que as deixe ecoando pelas eras que ainda restam à esse mundo, para que leiam aqueles que ainda viverão nesse caos... leiam-nos, a nós, que nos comprometemos com a seriedade da escrita fictícia. Dos nossos contos de fada... E assim que terminarmos, sabe-se lá quando, o "nunca" acaba e vamos de férias para Bahamas...

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